sexta-feira, 10 de junho de 2016

Em Verdade Penso.

    Sempre que passo um tempo sentada na plataforma de uma estação de metrô, seja lá qual seja o motivo, penso que alguém irá entrar a qualquer momento atirando em todos ou que talvez um vagão vá descarrilhar ou ainda que tudo vai explodir ou qualquer coisa desse tipo, qualquer desastre. Então fico imaginado todo mundo desesperado e fico criando a vida dessas pessoas, quem elas são, quem estão deixando para trás, o que as trouxe até aqui e, nessa hora de desespero, como elas agiriam.
    Penso nas pessoas que embarcaram no último trem antes de tudo acontecer, como elas se salvaram por pouco, como vão ficar chocadas quando saberem o que aconteceu. Os outros trens parados, nas pessoas dentro dele sem saber o que se passa, penso em tudo isso.
    Tem um grupo aqui parado na minha frente. Penso quão fácil seria empurra-los para os trilhos, quantos realmente cairiam? Quem reagiria a tempo? Alguém seria salvo?
    Uma menina chora. Pessoas entram e saem dos vagões. E eu só penso no sangue e nos gritos. Penso neles como corpos estirados pedindo, implorando por algum sentido, para que a dor pare, para que o outro responda.
    Aquele ali lê um livro. Um casal se beija. E eu só quero que eles explodam, que caiam, que sangrem.
    Tem um grupo aqui na minha frente. Quantos eu consigo derrubar?
    Veja o grupo de amigos sorridentes. Veja aquela criança brincando em volta da mãe.
    Tem um grupo aqui na minha frente.
    Me levanto.
    Mas quantos? Eu me pergunto, quantos?

quarta-feira, 8 de junho de 2016

A Brincadeira

    As crianças se reuniram no jardim atrás da escola contemplando o resultado da arte que acabaram de aprontar. Por medo, decidiram enterrar tudo, cavaram um buraco como podiam e lá jogaram o produto da mais recente brincadeira.
    O sinal tocou e bem comportados, como ficou decido entre eles, voltaram a sala, em fila, quietos se acomodaram em seus lugares e nenhuma dor de cabeça deram a professora daquele período. A aula acabou e todos foram embora.
   Já era fim de tarde e o jardineiro terminava de regar as plantas do jardim quando notou a terra remexida. Um susto ele levou. A polícia foi chamada e as aulas foram suspensas.
   No jornal dessa manhã havia um anúncio que dizia:

"Procura-se professor de História"




quinta-feira, 2 de junho de 2016

Irreal

    É o quinto dia hoje, o quinto dia desde que eu descobri seu reflexo na janela. Nunca prestei muita atenção em você, quieto, atrás de mim, era quase como se não existisse. Então olhei para o lado e lá estava você.
    Talvez não tivesse me importado tanto se não fosse esse seu semblante melancólico, focado num vazio ou parcialmente escondido, odeio quando se endireita e foge do reflexo.
    Hoje é o quinto dia e alguém tampou sua imagem, pensei em virar para trás e finalmente olhar sua cara e falar com você. Respiro fundo, vou me virando pouco a pouco.
    Olho sua cara. Seus olhos marejados encarando o chão.
    Viro para frente, seu reflexo está lá de novo, melancólico, como eu gosto, como eu entendo, só o que quero saber.

O Livro

    Foi ao ajeitar umas coisas no meu quarto que encontrei o livro. Um tanto empoeirado, verdade, um pó que me impediu de lembrar dele de imediato.
    Abri numa página qualquer, li um parágrafo aleatório. Me era tão familiar, uma sensação logo me ocorreu, a de fechar aquele livro e devolve-lo a poeira, mas era um mistério queria resolver.
    Folheei lendo páginas a esmo, o que me fez duvidar se eu realmente conhecia aquele livro ou não, já que certas passagens eu quase reconhecia e outras eram completamente estranhas.
    Somente na última página que tudo voltou. Seu nome estava gravado lá.