É sexta-feira, uma sexta-feira
fria, com aquela chuva gelada que não é forte o suficiente para um
guarda-chuva, mas é incrivelmente cortante e irritante. Mas vamos voltar essa
história, pois ela começa num lugar um pouco mais aquecido e confortável.
Estou em casa vendo um programa
na TV, estou quente, feliz e um pouco assustada. O programa falava sobre uma
mulher que dizia conversar com o espirito do pai de uma garota. Nenhuma das
duas se conheciam e a única coisa que tinham em comum era o pai morto de uma
delas. Se você não acredita nessas coisas entendo que ache que não tem
cabimento eu ficar assustada com isso, mas se você estivesse vendo o mesmo
programa que eu, bom... talvez você não duvidasse tanto. A questão aqui nem é o
programa ou o que você acredita ou o que deixa de acreditar e sim o que
aconteceu depois que eu saí da aula.
Lá estava eu, correndo pelas escadas
depois de levantar do meu lugar e abandonar a aula. Meu celular na bolsa
vibrava e eu corria mais, sabia que estava potencialmente atrasada, só que eu
ainda tinha esperanças de que, se eu corresse o suficiente, chegaria no
horário. E é nessa parte que eu chego na chuva fria e irritante.
As ruas estavam pouco
movimentadas para o horário, o que me deu mais motivos para correr, a chuvinha
fina, mais conhecida como garoa insuportável, caia; E eu andando o mais rápido
que podia para chegar ao lugar onde havia combinado com uma amiga de assistir
uma apresentação de dança. Cheguei. Bem na hora.
Depois dos curtos e apressados
abraços e dos "olás", nos dirigimos aos nossos lugares, fileira G,
cadeiras 1 e 2, e como esse é daqueles teatros que as cadeiras pares ficam para
o lado esquerdo e as ímpares do lado direito, nossas cadeiras eram exatamente o
encontro, ou seja, o meio da fileira.
O sinal que avisa que a
apresentação está para começar soa, o teatro está lotado, as luzes apagam, a
dança começa. Devo dizer que não sou muito entendida de dança, mas posso
afirmar com certeza que, seja um apocalipse zumbi, fantasmas ou
pessoas-marionetes que estavam sendo representados pela dança, era simplesmente
sinistro. Sério, muito sinistro, do tipo que você fica meio
tenso e olha que eles só estavam dançando e contorcendo os corpos de uma
maneira... sinistra.
Como eu havia dito, o teatro
estava lotado, então, durante o intervalo, eu olho para o lado e noto que todo
o meu lado estava vazio, digo, todas as cadeiras pares ao meu lado, todas,
todas vazias, afinal era o intervalo. Só que quando o apito soou avisando do
início as cadeiras continuaram vazias.
Quando o espetáculo acaba comento
esse fato com minha amiga que diz não se lembrar se havia ou não pessoas ali,
então eu rebato falando que passamos por pelo menos duas senhoras quando fomos
aos nossos lugares, ela pensa, mas não tem certeza, nem de que haviam pessoas,
nem de que não haviam pessoas.
Metade de uma fileira toda,
sumida. E eu nem ao menos os vi levantar para o intervalo, apenas assumi que
era isso o que tinha acontecido. Um apaga e acende de luzes numa apresentação
hipnotizantemente sinistra. Um vazio do meu lado que ninguém pareceu notar.
Agora nem eu mesma sei se essas pessoas estavam lá ou se sempre foram fantasmas
da minha mente.