segunda-feira, 11 de dezembro de 2017

Aqui

    Eu estou no alto de um penhasco muito, muito alto. Melhor dizendo, estou na beira de um penhasco... na verdade, não sei se posso chamar isto de penhasco. É como se fosse uma ilha e eu estou aqui no topo. Não, isso não é correto... no topo ainda tem uma pedra e eu estou em cima da pedra.
    Sempre tive muito medo de altura, só de olhar para baixo eu estremeço, tudo que sobre em mim é medo. Apesar da maioria das pessoas lá embaixo não acreditar, às vezes eu realmente me sinto em perigo. Tudo aqui treme, eu chego a cair de joelhos contemplando o chão árido e duro lá de baixo. Já mencione que tenho medo de altura?
    Não é fácil ficar aqui e tem gente que cisma que estou num lugar no qual não me manter de propósito "você não devia ter subido até aí" elas dizem, "não é bom para ninguém".
    Aqui na verdade não é nem o topo realmente e eu devo confessar que de vez em quando penso como seria chegar lá em cima. Eu vejo outras pessoas subindo, ou pelo menos acho que vejo, e me pergunto se lá seria mais seguro. Muita gente me grita dizendo que eu estou louca "ninguém sobe até lá". Então eu fico aqui na minha pedra. Já disse que não é muito estável aqui?
    Os vários terremotos já me deixaram com tantas cicatrizes que tenho a impressão de que algumas quedas eu nem sinto mais. Outras vezes eu fico tão assustada que grito lá para baixo, peço socorro, que para mim já deu, aquele definitivamente vai ser o abalo que vai me jogar lá para baixo, só que o pessoal não bota fé não. "Mas você nunca cai" disse uma menininha baixinha, "sempre o mesmo papo, mas nunca vi esses seus abalos", um moço disse certa vez "você que tá sempre mirando lá em cima, aí fica inventando esses medos absurdos.", em coro escuto "você nunca cai, nos poupe".
    Então eu acabo por me convencer, eu não caio, só sou louca por querer ir para cima, já fiz um ótimo trabalho chegando aqui, ficando de pé, aliás, não existe um lá em cima e os tremores estão todos mesmo na minha cabeça. Essa pedra é firme, essa ilha no céu, não, esse penhasco, sim, apenas uma beirada ligada a toda uma estrutura bem estável, está tudo bem por aqui.






   Uma vez topei com uma moça lá em baixo, eu disse que estava tudo certo, que apenas tinha descido ali para admirar a paisagem, ter outras experiências. Apesar de todo meu sangramento ela apenas se limitou a dizer "acontece". Acontece que eu sai correndo, voltei para a pedra e gritei que realmente eu nunca caio, só gosto de ter algo para reclamar de vez em quando.

quinta-feira, 7 de dezembro de 2017

A Confissão

    Eu acho que eu matei uma pessoa.

    Não é como se fosse algo que pudesse passar desapercebido. Eu ouvi os gritos implorando por ajuda, eu senti o desespero, os cachorros latiam e os carros passavam e eu acho que matei uma pessoa.
    Era tudo tão alto, onde estava sua mãe afinal? Como ela pode não ouvir? Acho que ninguém ouviu... a polícia nunca veio, os latidos foram ficando distantes, seus gritos cada vez mais sumiam de meus ouvidos...

    ... de repente era só noite.
   
    As poucas luzes ainda acesas foram se apagando. Ninguém ligou. Eu não liguei.


    Daqui dessa janela acho que matei uma pessoa.



    Quem vai me perdoar?

sábado, 5 de agosto de 2017

As Crianças

Será que vai dar para ouvir as crianças?

Eu queria que você ouvisse as crianças brincando. Elas parecem estar aqui dentro do meu quarto, mas eu fui até a janela e estiquei meu braço para fora o máximo que pude, consegue ouvi-las?

Eu não as vejo, só a mulher na sacada, essa eu vejo bem, mas não as crianças que estão aqui no meu quarto, só escuto, como os fantasmas lá de baixo. Você consegue ouvir?

Talvez não...
Mas eu gostaria

Será que você consegue ouvir as crianças entre os carros e aviões?
Todas as vozes correndo de um lado para o outro...
Alice!
Eduarda!
Pra cá! Pra cá!
Um, dois, três, quatro, cinco...
e os risos

...

Agora já é tarde e todas elas ficaram quietas.
Você ouviu?

Amanhã talvez.

quarta-feira, 7 de junho de 2017

Como Sempre

Eles se despediram como sempre fizeram e, como sempre, cada um seguiu seu caminho, sem pestanejar. Me pergunto aqui se eles soubessem... se soubessem... Será que ele voltaria? Será que ficaria ali mais um minuto? Sorriria uma vez mais? E o outro, que faria? Correria a plataforma atrás de mais um abraço? Atrás de mais uma risada? 

Mas eles não sabiam e, como sempre, se despediram e seguiram cada um para o seu lado, sem saber que apenas um deles voltaria a ver o outro, através de lágrimas que jamais cessariam, perguntas que o atormentariam pela eternidade... E se eu o segurasse um minuto mais? E se tivesse insistido? Mas ele não sabia, ainda. 

Eles se despediram como sempre fizeram e, como sempre, cada um seguiu seu caminho, sem saber que era a última vez do sempre. 

terça-feira, 6 de junho de 2017

Em Prol do Meu Amor

Você não viu as luzes e as lagoas que eu lhe fiz. 
Não ouviu as canções e os passarinhos que eu coloquei em seu caminho.
Não provou nem mesmo o perfume floral que lhe preparei.
Não leu as cartas, não sentiu meus carinhos, não experimentou as alegrias que lhe proporcionei. 
E eu finjo que está tudo bem em prol desse amor, em prol da minha sanidade mental e das minha ilusões. 
Será que você beberia o chá ou o suco de fruta fresca? 
Chá para dois... sente o cheiro do hortelã que colhi especialmente para você?
Talvez eu devesse tentar a maçã...

domingo, 28 de maio de 2017

Canções da Noite

    E o Céu sorria o mais lindo sorriso com seus dentes amarelos.  
    Ela caminhava entoando suas canções para o sorriso do céu.
    A Noite a abraçava suavemente com suas brisas. 
    E ela seguia seu caminho, cantando suas canções
    
    'E saibas que nunca estarás sozinha, minha querida, sigas tua vida, não te preocupes, pois aqui dos montes as estrelas te esperam e minha voz te guia.'

    Até que os ventos mudaram e suas canções foram sufocadas pelos lamentos que a chicoteavam. 
    Desamparada, buscou auxílio no sorriso amarelo, não encontrou. E foi ali, na noite traiçoeira, sem a benção do céu, que ela finalmente se percebeu sozinha
    Caminha, quieta, com medo das sombras que tomaram seu caminho.
    O Céu sorri um sorriso amarelo e zombeteiro.
    
    'E saibas que mesmo depois de perdida, minha querida, não te desespere, sigas tua vida, não te preocupes, pois aqui dos montes as estrelas brilham mais forte, sempre olharei por ti.'

quarta-feira, 17 de maio de 2017

A Vizinha

    Ela se sentia agradecida por poder fechar a janela antes de se deitar. Mas não conseguiu abafar o incessante choro da vizinha. Talvez fosse apenas a TV, com certeza devia ser a TV, toda noite no mesmo canal lamuriento, em uma programação em looping, talvez seja um disco, claro, tocando a mesma música sem parar e outra vez, alguma coisa para dormir, uma indução, essas coisas orientais, meio fúnebre, mas eficaz... 
    Ela se sentia agradecida por poder fechar a janela e pela brilhante ideia de comprar protetores de ouvido na farmácia na manhã seguinte.

segunda-feira, 3 de abril de 2017

A Outra

E lá vem ela... aquela autorazinha, falando...
ela nem fala minha língua, mas acho que ela não se importa, nós nos entendemos não é mesmo?
Essa vozinha pulsante que insiste em ocupar minha mente sem permissão.
Fala.
 Fala.
Fala.
Dita tudo o que quer, me condena as noites e dias tranquilos.
Você está tão pálida, não, essa sou eu, você, eu, por que só não se cala?
Tum
Tum
Tum
Ela bate.
Tum
Tum
Eu não quero escutar
TUM
O que você quer?
Me deixa sair.

E lá vem ela... é, não é fácil mantê-la sob controle, quem é você?
Eu não sou interprete, você não precisa ficar mais aqui, pode ir
Tum
Eu disse que pode ir.                                                                                                       Eu disse?
Quantas somos nós?
Alô?
...

Foi embora...