segunda-feira, 1 de outubro de 2018

O Drama que Veio dos Céus



A chuva fina já caia, espalhando seu abraço frio, dilacerando a pele de quem se atrevesse a encara-la. Não bastasse a punição, sem aviso prévio, infligida pelas gotas, o céu deixava sua opinião sobre a situação, a mensagem era clara “não, não vai haver alívio, vocês merecem um bom castigo”. Quem afrontaria os céus?

E se pensa que poderia se esconder, se abrigar dessa cruel pena imposta por entes raivosos que sabiam exatamente como fazer para destruir todo seu ser, não poderia. URROS E MAIS URROS CORTAVAM A ESCURIDÃO COM SEUS FLASHS HORRIPILANTES. Não há para onde fugir, não há para onde correr. Não, não vai haver alívio, vocês merecem um bom castigo.

A tempestade já era agora de tamanho tal que nem mais me dava ao trabalho de sonhar com seu fim. Já estava tudo inundado. Já estava tudo estragado. Já não havia uma brecha se quer no breu que se formou tão rapidamente. Não, não vai haver alívio, você merece um bom castigo.

Restou apenas o desespero frente ao cenário nada favorável que só tendia a piorar e piorava e piorava e afogava e esmagava. Foi quando o vento veio mostrar seu apoio. Veio rápido e com força, veio de uma vez e tratou de aniquilar os poucos corajosos sobreviventes. “Como se atrevem a ir contra nossas ordens? Já não estava suficientemente explícito que se encolher e tremer diante de nós era conduta obrigatória?”, as palavras doíam e carregavam. Não, não vai haver alívio, você merece um bom castigo.

O pandemônio instaurado já tomava proporções catastróficas irreversíveis. Deixou de ser apenas dor e angústia para se tornar também medo e pavor. Uma noite sem fim, sem luz, sem cor. Não havia defesa, não havia escape e não, não haveria alívio, o castigo era merecido.

Quem cansaria primeiro? Podia ser só uma questão de esperar... mas dada as atuais circunstâncias não parecia haver o que esperar. Era uma tempestade imensurável em sua magnitude, imponente, sem trégua. Chuva fria de facas, céu irritado e ausente de luminosidade, vento fortes e implacáveis, todos a postos contra tudo e contra todos. Contra mim. Do tipo que não alivia, que castiga, que deixa óbvio sua culpa.

É só o que existe, é só o que resiste sem encontrar qualquer obstáculo. Presa fácil, sem proteção, como haveria de lutar? Não há como ou porque ir contra a vontade dos céus. É ou aceitar e respirar com dificuldade ou testar a morte rápida e dolorosa. Mas é dolorosa também a respiração, sempre por um triz debaixo desse torrencial. Se mereço e não há alívio, melhor deixar a enxurrada levar.

E ela é forte, não distingue, não tem pena e lhe leva pelo caminho de pedras, pedras, pedras, pedras






                                    Pedras



                                                                                            Pedras


Pedras 
Pedras                                                                Pedras





Pedras                                                  Pedras

   Pedras




                      Pedras                                                                          Pedras
     






E ao longe até se escuta “que lindo dia!”, só que ninguém vê a tempestade como deve se ver. “O castigo é seu por você”, só que ninguém sente a tempestade como deve ser. É o fim dos tempos e não há nem guarda-chuva. É o fim dos tempos e está claro que é somente minha culpa.