- Estou feliz que você tenha finalmente vindo! Sente-se.
- Você queria falar comigo?
- Sim, sim... ouvi muito sobre você, achei que estava na hora de nos encontrarmos.
- E o que você quer?
- Bom, eu gostaria de te conhecer melhor, fazer umas perguntas, só pra entender alguns aspectos melhor, sabe?
- Hmm... ok, tudo bem... pode perguntar...
- Certo. - ela fez uma pausa e se arrumou na sua poltrona. - Ouvi dizer que você tem uns sonhos que você... - e outra pausa para escolher o termo. - Lembra, certo? Lembra como se fosse uma memória, o que eu queria saber é se você tem dificuldade de separar a realidade dos sonhos.
- Ah! - então era sobre isso? - Não é bem assim... não é que eu não sei que não são reais, é que quando eu acordo eu sinto, digo, consigo ainda sentir o que aconteceu, então de certa forma é como se realmente tivesse acontecido... se bem que eu suspeito que, se acontecesse de verdade, seria pelo menos dez vezes pior.
- Pior? Quer dizer que são sempre coisas ruins?
- Que eu lembro a sensação? Sim, sempre tem uma arma, uma perseguição, morte, gente morta, fantasmas de crianças sinistras, aranhas e violência.
- Parece bem desagradável. Você é sempre a pessoa que morre? A perseguida? Como é isso?
- Hmm... mesmo que não seja eu, mesmo que seja um outro personagem, digamos, ainda sou eu que sinto, sou eu que acordo e lembro da sensação. Eu que lembro como foi tentar pedir por socorro e não conseguir, eu que lembro como era cansativo e pesado correr e correr pra escapar, como era assustador ter que lidar com uma criança morta, com a boneca amaldiçoada, a bruxa, eu que lembro como era olhar e ver que estava tão perto do lugar seguro, da onde eu devia chegar, tão perto, mas ainda assim longe e fora da vista de alguém que pudesse ajudar.
- E eles sempre acabam mal?
- Olha, nem sempre... esse último por exemplo, depois de bom... depois da parte ruim, eu cheguei no hotel, eu sentei na frente de uma porta e chorei, quando a porta abriu, tinha essa pessoa, eu tinha encontrado com ela no começo do sonho, ela tinha até me mostrado um lugar secreto dela, onde ela podia ficar em paz, enfim. Quando a porta abriu, ela estava lá, assim que me viu me chamou pra entrar, em algum momento ela percebeu que tinha algo errado, então ela me colocou pra dormir e foi aí que acordei.
- Entendo, entendo. Tem tudo isso em vista, queria te perguntar uma coisa.
- O que?
- E se a felicidade de alguém dependesse de você sair da vida dela?
- A felicidade de quem?
- Da pessoa
- Do sonho?
- Da pessoa.
- Se a felicidade dela dependesse de mim sair da vida dela?
- Sim, o que você faria?
- A gente não poderia achar um meio do caminho? Onde eu ficasse mais afastada, mas não que tivesse que sair completamente?
- E por que isso?
- Bom, acho que eu ficaria infeliz...
- Pensa, ela ia ser feliz pra sempre, conseguir tudo que quisesse, tudo que ela sonhou, tudo que a faria feliz, ela teria tudo... só que você precisa sair de cena.
- Se é o melhor pra ela... então eu iria embora.
- Mas e você, não disse que ia ficar infeliz?
- Bom, sim, mas uma hora ia passar... uma hora eu ia aprender a lidar com isso e achar felicidade em outro lugar...
- Não.
- Como assim não?
- Veja, você depende dessa pessoa, ela não depende de você, por isso ela ficaria melhor sem você, entende?
- Não...
- É assim, como você depende dela, você pesa, como ela não depende de você, você perde o apoio e é isso.
- Você diz então que, se eu sair, ela vai ter mais espaço para as coisas que fazem bem e eu vou ficar sem nada?
- Isso mesmo.
- Então se eu sair da vida dela...
- ... ela seria absolutamente melhor e mais feliz...
-... mas eu não teria nada mais?
- Nada mais.
- Se eu não teria nada mais... e ela seria feliz...
- O que você faria?
- Eu sairia da vida dela.
- E o que você está esperando?
- Oi?
- O que você está esperando pra ir?
- E ela seria feliz?
- Sim.
- Eu não teria nada, nunca mais?
- Sim.
- O que você faria?
- Eu sairia completamente.
- Eu sairia completamente.
- O que você está esperando?