quinta-feira, 28 de junho de 2018

Fica, Pode Ficar

Eu não precisei correr atrás, não precisei lhe conquistar, agradar, não precisei me fazer notada, não passei por nada disso, por nenhum desses jogos de flerte, nada. Eu apenas lhe dei meu coração e você me deu o seu e quando notamos o que tínhamos feito... já era tarde. Era tarde para devolver, tarde para dizer não, tarde para fingir que o que tinha aqui, o que tinha ali, não era um e não era o outro. E como neguei.

Agora já é tarde, agora eu só quero todo o resto que você tem, quero seu ar para encher meus pulmões, quero seu calor para esquentar minha pele, quero tudo que você ainda não me deu e tudo que ainda vá me dar.

É inútil tentar escapar do que nunca foi uma brincadeira, do que nunca foi uma questão de sedução. Foi apenas a gente se encontrando e encontrando e encontrando cada vez mais seja lá o que estávamos querendo encontrar, até que já era tarde.

Não lembro quando foi que recebi ou quando lhe entreguei, não sou capaz mesmo de definir, pois sempre parece que foi um pouco antes do que eu achava que tinha sido. Sei tão menos como as coisas desenvolveram, foi só a chuva caindo, o rio seguindo, o sol brilhando, o vento venta, não é? 

Agora estamos aqui. E aqui já é tarde. Aqui é o fim. Aqui é a descoberta, a resolução. Daqui não dá para fugir, não dá para se esconder. Então seja bem-vindo, sinta-se em casa. Daqui tem muitos caminhos para seguir, mas nenhum para se voltar. Eu pediria desculpas pela confusão, pediria perdão por ter lhe arrastado comigo, mas não quero. São muitos caminhos para seguir e nenhum para voltar (e você não percorreu nenhum deles sem querer). 


segunda-feira, 18 de junho de 2018

Pesadelos

- Estou feliz que você tenha finalmente vindo! Sente-se.
- Você queria falar comigo?
- Sim, sim... ouvi muito sobre você, achei que estava na hora de nos encontrarmos.
- E o que você quer?
- Bom, eu gostaria de te conhecer melhor, fazer umas perguntas, só pra entender alguns aspectos melhor, sabe?
- Hmm... ok, tudo bem... pode perguntar...
- Certo. - ela fez uma pausa e se arrumou na sua poltrona. - Ouvi dizer que você tem uns sonhos que você... - e outra pausa para escolher o termo. - Lembra, certo? Lembra como se fosse uma memória, o que eu queria saber é se você tem dificuldade de separar a realidade dos sonhos.
- Ah! - então era sobre isso? - Não é bem assim... não é que eu não sei que não são reais, é que quando eu acordo eu sinto, digo, consigo ainda sentir o que aconteceu, então de certa forma é como se realmente tivesse acontecido... se bem que eu suspeito que, se acontecesse de verdade, seria pelo menos dez vezes pior.
- Pior? Quer dizer que são sempre coisas ruins?
- Que eu lembro a sensação? Sim, sempre tem uma arma, uma perseguição, morte, gente morta, fantasmas de crianças sinistras, aranhas e violência.
 - Parece bem desagradável. Você é sempre a pessoa que morre? A perseguida? Como é isso?
- Hmm... mesmo que não seja eu, mesmo que seja um outro personagem, digamos, ainda sou eu que sinto, sou eu que acordo e lembro da sensação. Eu que lembro como foi tentar pedir por socorro e não conseguir, eu que lembro como era cansativo e pesado correr e correr pra escapar, como era assustador ter que lidar com uma criança morta, com a boneca amaldiçoada, a bruxa, eu que lembro como era olhar e ver que estava tão perto do lugar seguro, da onde eu devia chegar, tão perto, mas ainda assim longe e fora da vista de alguém que pudesse ajudar.
- E eles sempre acabam mal?
- Olha, nem sempre... esse último por exemplo, depois de bom... depois da parte ruim, eu cheguei no hotel, eu sentei na frente de uma porta e chorei, quando a porta abriu, tinha essa pessoa, eu tinha encontrado com ela no começo do sonho, ela tinha até me mostrado um lugar secreto dela, onde ela podia ficar em paz, enfim. Quando a porta abriu, ela estava lá, assim que me viu me chamou pra entrar, em algum momento ela percebeu que tinha algo errado, então ela me colocou pra dormir e foi aí que acordei.
- Entendo, entendo. Tem tudo isso em vista, queria te perguntar uma coisa.
- O que?
- E se a felicidade de alguém dependesse de você sair da vida dela?
- A felicidade de quem?
- Da pessoa
- Do sonho?
- Da pessoa.
- Se a felicidade dela dependesse de mim sair da vida dela?
- Sim, o que você faria?
- A gente não poderia achar um meio do caminho? Onde eu ficasse mais afastada, mas não que tivesse que sair completamente?
- E por que isso?
- Bom, acho que eu ficaria infeliz...
- Pensa, ela ia ser feliz pra sempre, conseguir tudo que quisesse, tudo que ela sonhou, tudo que a faria feliz, ela teria tudo... só que você precisa sair de cena.
- Se é o melhor pra ela... então eu iria embora.
- Mas e você, não disse que ia ficar infeliz?
- Bom, sim, mas uma hora ia passar... uma hora eu ia aprender a lidar com isso e achar felicidade em outro lugar...
- Não.
- Como assim não?
- Veja, você depende dessa pessoa, ela não depende de você, por isso ela ficaria melhor sem você, entende?
- Não...
- É assim, como você depende dela, você pesa, como ela não depende de você, você perde o apoio e é isso.
- Você diz então que, se eu sair, ela vai ter mais espaço para as coisas que fazem bem e eu vou ficar sem nada?
- Isso mesmo.
- Então se eu sair da vida dela...
- ... ela seria absolutamente melhor e mais feliz...
-... mas eu não teria nada mais?
- Nada mais.
- Se eu não teria nada mais... e ela seria feliz...
- O que você faria?
- Eu sairia da vida dela.
- E o que você está esperando?
- Oi?
- O que você está esperando pra ir?
- E ela seria feliz?
- Sim.
- Eu não teria nada, nunca mais?
- Sim.
- O que você faria?
- Eu sairia completamente.
- Eu sairia completamente.
- O que você está esperando?


























































































sábado, 16 de junho de 2018

Danis e Nanaê - Céu e la mar (Parcela 1/2)

Olá, você está ouvindo? Consegue ouvir minha voz? Eu espero que sim. 
Isso aqui não é pra dizer que eu amo você ou pra agradecer, mesmo que eu realmente ame e realmente seja grata. E eu amo e sou grata. Na verdade, isso aqui é só pra dar nome a você. Isso aqui é um jeito de me expor ao expor você. Isso aqui é maior esforço de me separar do meu lugar seguro de "autora", não é ela que escreve, não vou me esconder na voz dela ou pelo menos vou tentar com muito afinco. Não sei ainda do que posso chamar isso, mas acho que tão pouco importa. Isso, como vários outros, veio por conta, as palavras começaram a surgir na minha frente e eu sabia que devia tomar nota (talvez seja a "autora" falando mesmo, mas eu não estou me escondendo, estou aqui também). Partes do que escrevo vieram em inglês, então farei o meu melhor para traduzir pra você. 
Comecei a escrever na minha cabeça e implorei logo por um banco no ônibus com medo de perder as palavras (e algumas foram perdidas), eu estava pensando muito no fim, em todos os fins, os bons, os ruins, os necessários, os forçados, todos eles e francamente não sei o que fazer quanto a isso, não sei por que as vezes sinto tido findar (e aqui eu já tenho que segurar as lágrimas - ou seja, estou entrando em alguma verde minha que nem sempre é fácil - ), mas eu não estou escrevendo sobre o fim ou como sinto as coisas escorrendo por entre meus dedos, esse não é o ponto. O ponto é reconhecer você, só não sei bem como, só queria reconhecer você sem rodeios, sem meias palavras, sem ela e, para isso, parece que preciso de mim, acho que é aí que o fim entra. Ele faz parte como você faz parte. Não é uma parte que escolhi, mas é uma que existe, é uma parte que que importa. (Eu perdi mais algumas palavras, é difícil escrever andando). Acho que tinha a ver com o céu e o mar, aqueles que são longe de mim, os lugares que quero estar, o infinito. Talvez seja esse o ponto, o não-fim que é assustadoramente reconfortante, mas também... bom, assustador. Não tenho escolha quanto ao céu e o mar, a existência deles é muito mais do que eu posso controlar, assim como não posso controlar sua existência, se ela vai me dar luz ou me engolir, por vezes fria, por vezes relaxante e, antes que ela assume o controle, você está longe do meu controle e pode escapar por entre meus dedos facilmente (e lá vou eu chorar de novo).   
Eu reconheço aqui também esse medo, reconheço seu nome e a sua parte. Abro aqui algumas verdades, algumas dores e algumas felicidades (é quase como uma coisa  essa coisa sendo eu). Pois bem, não sei se é só isso e provavelmente não seja (e eu sei que não é), mas é o tanto que posso dar agora. Não sei como essas palavras chegaram a você, sei que vou deixar que escolha, assim como escolhi escreve-las. 
E mais uma coisa, caso queira, me pergunte da música que anda rondando minha cabeça... esse é outro jeito de expor um pouco mais o que eu gostaria. Eu gostaria de dizer muito mais, muito, muito mais.

Esse é o fim, esse fim, disso e de mais nada.  

quarta-feira, 13 de junho de 2018

A Visita

Eu lhe deixei entrar.  
Mostrei a sala toda arrumada e você foi logo para a cozinha, a louça toda na pia, antes que eu pudesse fazer alguma coisa você já estava no corredor, as paredes todas precisando de uma mão de tinta e num piscar você já corria em direção ao quarto, corri mais e me pus em frente a porta “não, está uma bagunça”, mas você insistiu, insistiu e insistiu, quando dei por mim a porta atrás estava aberta e você espiava por cima do meu ombro. Que desastre.  
 Eu tinha certeza que você encerraria sua visita, a casa era uma bagunça! Não podia ter ficado apenas na sala? A sala! “Você não quer voltar para sala?”, você chacoalhou a cabeça negativamente e eu perdi todas as esperanças de colocar aquela visita de volta nos trilhos. 
 Quando olhei para cima você não estava mais lá. “Bom”, pensei, “era de se esperar que fosse embora depois ver essas paredes tortas e toda a confusão, esse quarto! Por que eu não dei um jeito naquele lugar, tipo uma fechadura?! Agora já foi...” e continuei a pensar e repensar em todas as reformas, cadeados e tudo mais que devia implementar, arrumar, refazer, trocar, reposicionar, senhas, códigos, ... eu já estava desolada, jamais daria conta de tudo isso. Foi então que... 
  
- Você não vai entrar? 

segunda-feira, 11 de junho de 2018

Essas rimas sem graça


Você disse que tem medo do mar,
“Eu não sei nadar”, tentou explicar. 
 Eu só queria te dizer que existem tantas outras formas de mergulhar
 e tantos outros jeitos piores de se afogar. 

O mar pode ser sim traiçoeiro
sem o menor aviso te engolir por inteiro. 
Mas eu só queria dizer que morri primeiro 
e o mar nem foi testemunha do meu desespero.

domingo, 10 de junho de 2018

Faixa Amarela

Era como se fosse uma medida de segurança, daqui não se pode passar, essa é uma linha incruzável, intransponível se quiser sobreviver. E eu tentava seguir à risca o melhor que eu podia, tentava não ceder ao impulso, ao desejo, a vontade, e se eu desse só um passo? Só uma espiada?...

Uma medida de segurança, mas não sabia de que estava me segurando. Era para não cair? Cair de onde? Cair de que? Cair no choro? Cair em tentação? E o que era que me tentava afinal?...


E se visse?


Se escrevesse?


Se ligasse?


Se tentasse?


E se perdesse?


Se precisasse?


Se quisesse?


E se fosse?


Se não fosse?


Se não quisesse?


Se não precisasse?


E se não perdesse?


Se não tentasse?


Se não ligasse?


E se não visse?


Se fosse?








PRA QUE CARALHO ESSA MERDA DE MEDIDA DE SEGURANÇA SERVE?!





























































































































































































lembrei ...