sexta-feira, 25 de novembro de 2016

A Queda

    Ela se apega a cada matéria, a cada coisa em que pode por as mãos para não se desprender, para não ser esquecida e para não esquecer. Agarra com todas as suas forças ao mundo, seus músculos, já tão tensos, querem o alívio da liberdade, mas ela não deixa, ela não solta, ela se quebra e sente as dores dessa existência que ela se impõe pelos outros e não há ninguém nessa rua.
   Pra que? Pra quem? Por quê? Só me diz, por quê? Não percebe que não aguenta mais? Solte. A queda é curta, é dura, mas é finita e essa tortura já arrastou todas as correntes. Não há ninguém, nem agora, nem depois, nem mesmo antes, não haverá amparo. Percebeu agora?
    Solte.

Projeto Inacabado

    Seu cabelo desbotado e quebradiço é a prova definitiva de sua ruína, seu esmalte só não está mais destruído que seu coração e sua alma há anos não habita os olhos. Ainda respira, ainda sorri, mas morre um pouco mais a cada dia, apenas vagando, jogada de lá para cá.
    Suas roupas surradas como seus sonhos, suja, imundas esperanças que correm bueiro a baixo, levando consigo qualquer traço que um dia já a definiu. As veias entupidas de tanto desgosto sangram e os ratos se escondem nos últimos lugares seguros, roendo-os, fazendo-os sangrar até que já não haja escape. Morre-se tudo... um pouco mais cada dia.
    E ela anda. Olha para frente e anda, mexendo o corpo em putrefação, arrastando e deixando rastro da sua decomposição. Um dia não restará nem seu cabelo desbotado e quebradiço como prova de sua existência. Mais que morra.

segunda-feira, 14 de novembro de 2016

O Reencontro

    Nos encontramos e parecia que nada tinha acontecido.
    Nada havia florescido em minha ausência de você. 
    As paredes, todas as mesmas, entoavam a canção já conhecida. Era tudo familiar, nosso toque, sua voz, ainda assim, estranho. Um fantasma assombrava cada gesto e movimento, arrastando correntes. Descontente. 

    Nos encontramos e parecia que nada tinha acontecido.
    Nada havia morrido em sua ausência de mim.
   Você nunca me deixou, não me abandonou a deriva da minha própria loucura, não partiu todo meu ser já minguado pelos anos. Era como se fosse o começo, ainda assim, estranho. O fantasma ronda com suas lamúrias. Descontente.  

    Nos encontramos e parecia que nada tinha acontecido.
    Nada havia da nossa ausência de nós.
  Tudo tão normal como sempre foi, ainda assim, estranho. Esse fantasma... ainda carrego comigo. Pesado. Aqui. Descontente.
    
    É sério mesmo que para você nada mudou?

quarta-feira, 9 de novembro de 2016

Sobre Castelos de Areia

   




 "Sonhos são como castelos de areia, você constrói com cuidado, se diverte no processo, porém eles se vão, seja levado por uma onda, um vento mais forte, alguém pode simplesmente pisar e destruí-lo por completo, até mesmo você pode fazer isso. O ponto é exatamente esse: castelos de areia não são eternos.  Só não podemos deixar de construí-los, de novo e de novo. De certa maneira eles estarão sempre lá."






    Ela me disse isso uma vez, 
parece sem sentido agora, 
talvez porque eu tenha esquecido muitas das palavras 
ou talvez não faça sentido mesmo... 
sonhos não são castelos de areia, pessoas são.
 E a gente não pode refaze-las depois que se vão.
...