domingo, 9 de dezembro de 2018

Mantenha as Crianças Longe

Sabe como as pessoas tomam cuidado para não ficar falando coisas dos ex na frente dos atuais afim de evitar possíveis constrangimentos? Pois bem, crianças não tem isso. Crianças são capazes de dizer as coisas mais cruéis por pura inocência, elas não entendem que esse pequeno detalhe de trazer um fantasma do natal passado para o presente pode ser algo perigoso. Esse pequeno inocente deslize infantil aconteceu na noite em que ela foi embora.

Seriam as primeiras férias que ela passava com a minha família, ou seja, com meus pais, meus irmãos, seus maridos, esposas e filhos. Havíamos chegado a pouco e minha mãe mostrava o jardim da casa que eles sempre alugavam nessa época. Foi quando os filhos de minha irmã se aproximaram todos felizes, me perguntando quando a “titia Ana” ia chegar, falando de como ela havia prometido levá-los ao parque aquele ele ano. Minha mãe riu de nervoso e pediu desculpas, eu só fiquei lá parado, mas ela, ela logo foi dizendo para as crianças que a titia Ana não viria, mas se eles falassem onde ficava esse tal parque e se os pais deles deixassem ela mesma os levaria. As crianças ficaram extasiadas, saíram logo pedindo permissão e, como ela já estava acostumada a lidar com uma multidão de crianças, no fim da tarde partiu sozinha com as crianças em direção ao parque. 

Eles voltaram quase na hora do jantar, as crianças riam e relembravam com grandes sorrisos os momentos gloriosos que passaram, ela nem mesmo se sentou à mesa para comer. As crianças disseram que a titia estava muuuito cansada. Devia estar mesmo, quando subi ao quarto lá estava ela, deitada, ainda com as roupas que foi ao parque, morta. Tirei seus sapatos, deitei ao seu lado e também apaguei. 
Na manhã seguinte ela ainda dormia, lembro de pensar em como as crianças deviam ter a esgotado, então decidi descer e preparar um café reforçado. Na cozinha as crianças, que estavam em polvorosa para que a nova tia acordasse, contaram mais uma vez sobre como tinha sido a ida ao parque, como elas disseram a nova tia que ela era muito mais legal e esperavam que mesmo quando seu tio a deixasse, pois uma delas jurava que tinha ouvido que isso aconteceria em breve, que ela continuasse amiga deles, porque ela era muito legal,  elas gostavam muito da nova tia descolada. Não é a toa que ela devia estar exausta. 

Decidi aproveitar a história mal contada da minha sobrinha para fazer o que eu havia dito a sua mãe umas semanas atrás, que deixaria minha namorada muito em breve, nessas férias,  que ela deixaria de ser minha namorada para ser minha noiva. Coloquei o anel na bandeja que já estava cheia de frutas e torradas, um suco de laranja e café com leite que ela tanto adora, minha irmã me deu um sorriso de aprovação enquanto repreendia a filha por contar coisas que ela não sabia direito. Entrei no quarto,  chamei-a uma, duas, na terceira coloquei a bandeja sobre o criado mudo ao lado da cama e me sentei. Balancei, chacoalhei, dela nem sinal. 

Meus irmãos e seus filhos foram embora antes da ambulância chegar, com a desculpa de não querer estragar as boas memórias que eles tinham daquele lugar. Para meus eles, suas esposas, maridos e meus pais foi tudo uma leviandade da parte dela de acreditar em crianças, infantilidade dela de não querer por tudo em pratos limpos e egoísmo por ter feito isso lá, naquela época.

Agora eu via a ambulância partir com o corpo da minha sempre futura esposa. Eu não acho que ela tenha feito isso por mim, ela fez por causa de fantasmas, que há tempos a assombravam e ela parecia não conseguir ficar em paz. Um deles sei que foram meus sobrinhos que invocaram das piores maneiras, com as suas certezas, com seus “meu pai disse...”, “minha mãe sempre fala...”. Fantasma este que, por minha incapacidade de ver o quanto ela precisava lutar contra tantos outros, pesou até a mesa virar e ela desistir. Mas foram os fantasmas, todos eles que não a deixavam. Agora ela está em paz. Assim gosto eu de pensar. 



segunda-feira, 1 de outubro de 2018

O Drama que Veio dos Céus



A chuva fina já caia, espalhando seu abraço frio, dilacerando a pele de quem se atrevesse a encara-la. Não bastasse a punição, sem aviso prévio, infligida pelas gotas, o céu deixava sua opinião sobre a situação, a mensagem era clara “não, não vai haver alívio, vocês merecem um bom castigo”. Quem afrontaria os céus?

E se pensa que poderia se esconder, se abrigar dessa cruel pena imposta por entes raivosos que sabiam exatamente como fazer para destruir todo seu ser, não poderia. URROS E MAIS URROS CORTAVAM A ESCURIDÃO COM SEUS FLASHS HORRIPILANTES. Não há para onde fugir, não há para onde correr. Não, não vai haver alívio, vocês merecem um bom castigo.

A tempestade já era agora de tamanho tal que nem mais me dava ao trabalho de sonhar com seu fim. Já estava tudo inundado. Já estava tudo estragado. Já não havia uma brecha se quer no breu que se formou tão rapidamente. Não, não vai haver alívio, você merece um bom castigo.

Restou apenas o desespero frente ao cenário nada favorável que só tendia a piorar e piorava e piorava e afogava e esmagava. Foi quando o vento veio mostrar seu apoio. Veio rápido e com força, veio de uma vez e tratou de aniquilar os poucos corajosos sobreviventes. “Como se atrevem a ir contra nossas ordens? Já não estava suficientemente explícito que se encolher e tremer diante de nós era conduta obrigatória?”, as palavras doíam e carregavam. Não, não vai haver alívio, você merece um bom castigo.

O pandemônio instaurado já tomava proporções catastróficas irreversíveis. Deixou de ser apenas dor e angústia para se tornar também medo e pavor. Uma noite sem fim, sem luz, sem cor. Não havia defesa, não havia escape e não, não haveria alívio, o castigo era merecido.

Quem cansaria primeiro? Podia ser só uma questão de esperar... mas dada as atuais circunstâncias não parecia haver o que esperar. Era uma tempestade imensurável em sua magnitude, imponente, sem trégua. Chuva fria de facas, céu irritado e ausente de luminosidade, vento fortes e implacáveis, todos a postos contra tudo e contra todos. Contra mim. Do tipo que não alivia, que castiga, que deixa óbvio sua culpa.

É só o que existe, é só o que resiste sem encontrar qualquer obstáculo. Presa fácil, sem proteção, como haveria de lutar? Não há como ou porque ir contra a vontade dos céus. É ou aceitar e respirar com dificuldade ou testar a morte rápida e dolorosa. Mas é dolorosa também a respiração, sempre por um triz debaixo desse torrencial. Se mereço e não há alívio, melhor deixar a enxurrada levar.

E ela é forte, não distingue, não tem pena e lhe leva pelo caminho de pedras, pedras, pedras, pedras






                                    Pedras



                                                                                            Pedras


Pedras 
Pedras                                                                Pedras





Pedras                                                  Pedras

   Pedras




                      Pedras                                                                          Pedras
     






E ao longe até se escuta “que lindo dia!”, só que ninguém vê a tempestade como deve se ver. “O castigo é seu por você”, só que ninguém sente a tempestade como deve ser. É o fim dos tempos e não há nem guarda-chuva. É o fim dos tempos e está claro que é somente minha culpa.




quinta-feira, 6 de setembro de 2018

A Pintura

Elas brincam e correm, o lago que era tranquilo estremece e vibra. Talvez seja hora delas irem embora.
As risadas ecoam por entre as árvores que chacoalham os pássaros e outros seres para longe. Talvez seja hora delas irem embora.
Não é como uma pintura onde o sol brilha estático, fazendo com que se escute o som ao longe das crianças numa ciranda eterna e alegre. É um incomodo eterno de uma lembrança ao longe fazendo com que todo o som fique estático. 
É perturbador as crianças loucas, desvairadas, sem cuidado na beira do lago... Os sinos tocam, o lago se agita, as árvores trazem seus galhos mais perto, alvoraçados, frenéticos... é o fim... o som das crianças cada vez mais distante, até que morrem por completo.


O lago tranquilo é como um espelho, as árvores se afastam e recebem de volta seus moradores invisíveis. o sol se põe fora de alcance por entre nuvens espessas que não deixam a luz passar.

Agora temos uma pintura de um fantasma de uma ciranda que há muito se foi, quase sem deixar rastros, escondendo os sapatinhos e as bonecas, escondendo... 

Ainda bem que foram embora.

sexta-feira, 31 de agosto de 2018

Eu Sempre Soube

Você pode não perceber, mas para mim é muito claro.
Você pode achar que é loucura da minha cabeça, mas para mim é tudo muito claro.
Você talvez tente me convencer do contrário, mas quero que entenda...
Não estou te deixando, não estou desistindo.
Não vou embora, mas quero que entenda...
Nunca foi sobre como nos apaixonamos, nunca se tratou de como nos aproximamos, mas de como terminamos.
Desculpa soltar as coisas assim, mas já atingimos o pico e o resto é ladeira, eu sinto isso em todas as lágrimas que escondo de você. Eu sinto muito e peço desculpas por todas as coisas mais que irei esconder.
Não se culpe, não se martirize por isso, é que no fundo eu sempre soube que eu veria a felicidade e que ela iria embora, pois não aprendi a faze-la ficar.
Você não precisa me prometer nada, eu sei, eu sei que amanhã é mais longe que hoje.
Não se desespere, não decore essas palavras, deixe-as habitarem o fundo de sua mente e quando chegar a hora, o momento que você estiver pronto, elas virão para dizer que está tudo bem, tudo bem em dizer adeus, eu já sei.

sábado, 14 de julho de 2018

A Única Resposta

Eles não tiveram um linda e romântica história, só se conheceram, sem mágica nenhuma, sem grandes acontecimentos, como a maioria dos encontros são. Só estavam no mesmo lugar, quase nem trocaram palavras. Nada parecia um indicativo de nada.

Dias passaram, semanas, meses, as palavras cresceram, os encontros eram sempre certeiros, as risadas, tudo foi acontecendo, sem nada realmente acontecer, de estranhos foram se tornando mais próximos e as distâncias diminuíram e diminuíram. Mas nada, nada parecia um indicativo de nada além do que se podia ver ali. 

Foram os olhos.

Ela primeiro se apaixonou pelos olhos, pelo seu formato. Ela olhava e olhava, queria poder desenha-los, reproduzi-los, estava fascinada com aquelas linhas, queria guardar, queria levar consigo. Era só isso, apenas olhos com uma forma muito bonita, nada mais. E nada, nada parecia um indicativo de nada.

Depois vieram as mãos.

Ela só contemplava, observava e fantasiava maneiras de explicar a si mesma o que via e a essa altura já sabia que não havia fotografia, desenho ou palavras para que os outros (e ela) entendessem o que ela via. Via nos olhos e via nas mãos.

Então chegaram os abraços.

Ela recebia todos, não negava um. Eram pequenas doses de felicidade, pequenas doses alívio, pequenas doses de calma e, de dose em dose, ela foi se viciando cada vez mais. Queria mais abraços, mais mãos, mais olhos, mas nunca teria coragem de pedir, só aceitava o que vinha. 

Não, ela não viu vindo ou pelo menos fingiu que não, fingiu que nada estava acontecendo. Fingiu que nada era um indicativo de nada, eram apenas fábulas na cabeça dela, ilusões de ótica, da ótica dela nele. E daí se ela queria aquelas mãos sempre segurando as suas? E daí que ela queria aqueles olhos, que já não eram apenas uma questão de formato, mas de alma, fossem seus? Apenas doses de um remédio, apenas doses de um carinho sem compromisso.

Só que aí veio a boca.

Se não fosse o bastante desejar, olhos, mãos e abraços, ela começou a cobiçar a boca. Queria porque queria aquela boca, que ela achasse caminho para a sua boca. Foi só nesse instante que se deu conta que, sejam lá quais mentiras ela havia contado a si mesma até então, não dava mais. Não havia mais como fingir para ela que nada era um indicativo de nada. Mas também não havia o que fazer, além de lidar com tudo aquilo e por limites mentais e lógicos num bando de sentimento louco.

E ele apareceu.

Apareceu mesmo, marcou presença e deu a ela tudo que ela pediu. Primeiro eram essas doses, olhares, mãos e abraços... mas a boca, ele definitivamente apareceu quando deu a boca. Ela desejou tanto, mais tanto, que quando sentiu a boca dele na sua, nem parecia real. Ele havia mesmo virado o rosto? Havia mesmo encurtado a última distância, a última barreira? Havia.

Não, eles não têm nenhuma história engraçada de como o destino os uniu ou como o Universo os fez trombar numa tarde de primavera, enquanto corriam de um dia que tinha começado torto. Nada disso aconteceu. Foi só normal, eles só se viram e nem deram bola, conversaram e nem deram bola, como qualquer estranho que você possa vir a conhecer que lhe pergunte sobre o tempo, uma direção, não é importante. 

Não há história, além da cegueira, além das ilusões que foram confundidas com a realidade, que passou a ser descrita como ilusão para iludir. Há apenas um amor que surgiu ninguém-sabe-onde e que ela nunca será capaz de descrever... então o olha mais uma vez. 




quinta-feira, 28 de junho de 2018

Fica, Pode Ficar

Eu não precisei correr atrás, não precisei lhe conquistar, agradar, não precisei me fazer notada, não passei por nada disso, por nenhum desses jogos de flerte, nada. Eu apenas lhe dei meu coração e você me deu o seu e quando notamos o que tínhamos feito... já era tarde. Era tarde para devolver, tarde para dizer não, tarde para fingir que o que tinha aqui, o que tinha ali, não era um e não era o outro. E como neguei.

Agora já é tarde, agora eu só quero todo o resto que você tem, quero seu ar para encher meus pulmões, quero seu calor para esquentar minha pele, quero tudo que você ainda não me deu e tudo que ainda vá me dar.

É inútil tentar escapar do que nunca foi uma brincadeira, do que nunca foi uma questão de sedução. Foi apenas a gente se encontrando e encontrando e encontrando cada vez mais seja lá o que estávamos querendo encontrar, até que já era tarde.

Não lembro quando foi que recebi ou quando lhe entreguei, não sou capaz mesmo de definir, pois sempre parece que foi um pouco antes do que eu achava que tinha sido. Sei tão menos como as coisas desenvolveram, foi só a chuva caindo, o rio seguindo, o sol brilhando, o vento venta, não é? 

Agora estamos aqui. E aqui já é tarde. Aqui é o fim. Aqui é a descoberta, a resolução. Daqui não dá para fugir, não dá para se esconder. Então seja bem-vindo, sinta-se em casa. Daqui tem muitos caminhos para seguir, mas nenhum para se voltar. Eu pediria desculpas pela confusão, pediria perdão por ter lhe arrastado comigo, mas não quero. São muitos caminhos para seguir e nenhum para voltar (e você não percorreu nenhum deles sem querer). 


segunda-feira, 18 de junho de 2018

Pesadelos

- Estou feliz que você tenha finalmente vindo! Sente-se.
- Você queria falar comigo?
- Sim, sim... ouvi muito sobre você, achei que estava na hora de nos encontrarmos.
- E o que você quer?
- Bom, eu gostaria de te conhecer melhor, fazer umas perguntas, só pra entender alguns aspectos melhor, sabe?
- Hmm... ok, tudo bem... pode perguntar...
- Certo. - ela fez uma pausa e se arrumou na sua poltrona. - Ouvi dizer que você tem uns sonhos que você... - e outra pausa para escolher o termo. - Lembra, certo? Lembra como se fosse uma memória, o que eu queria saber é se você tem dificuldade de separar a realidade dos sonhos.
- Ah! - então era sobre isso? - Não é bem assim... não é que eu não sei que não são reais, é que quando eu acordo eu sinto, digo, consigo ainda sentir o que aconteceu, então de certa forma é como se realmente tivesse acontecido... se bem que eu suspeito que, se acontecesse de verdade, seria pelo menos dez vezes pior.
- Pior? Quer dizer que são sempre coisas ruins?
- Que eu lembro a sensação? Sim, sempre tem uma arma, uma perseguição, morte, gente morta, fantasmas de crianças sinistras, aranhas e violência.
 - Parece bem desagradável. Você é sempre a pessoa que morre? A perseguida? Como é isso?
- Hmm... mesmo que não seja eu, mesmo que seja um outro personagem, digamos, ainda sou eu que sinto, sou eu que acordo e lembro da sensação. Eu que lembro como foi tentar pedir por socorro e não conseguir, eu que lembro como era cansativo e pesado correr e correr pra escapar, como era assustador ter que lidar com uma criança morta, com a boneca amaldiçoada, a bruxa, eu que lembro como era olhar e ver que estava tão perto do lugar seguro, da onde eu devia chegar, tão perto, mas ainda assim longe e fora da vista de alguém que pudesse ajudar.
- E eles sempre acabam mal?
- Olha, nem sempre... esse último por exemplo, depois de bom... depois da parte ruim, eu cheguei no hotel, eu sentei na frente de uma porta e chorei, quando a porta abriu, tinha essa pessoa, eu tinha encontrado com ela no começo do sonho, ela tinha até me mostrado um lugar secreto dela, onde ela podia ficar em paz, enfim. Quando a porta abriu, ela estava lá, assim que me viu me chamou pra entrar, em algum momento ela percebeu que tinha algo errado, então ela me colocou pra dormir e foi aí que acordei.
- Entendo, entendo. Tem tudo isso em vista, queria te perguntar uma coisa.
- O que?
- E se a felicidade de alguém dependesse de você sair da vida dela?
- A felicidade de quem?
- Da pessoa
- Do sonho?
- Da pessoa.
- Se a felicidade dela dependesse de mim sair da vida dela?
- Sim, o que você faria?
- A gente não poderia achar um meio do caminho? Onde eu ficasse mais afastada, mas não que tivesse que sair completamente?
- E por que isso?
- Bom, acho que eu ficaria infeliz...
- Pensa, ela ia ser feliz pra sempre, conseguir tudo que quisesse, tudo que ela sonhou, tudo que a faria feliz, ela teria tudo... só que você precisa sair de cena.
- Se é o melhor pra ela... então eu iria embora.
- Mas e você, não disse que ia ficar infeliz?
- Bom, sim, mas uma hora ia passar... uma hora eu ia aprender a lidar com isso e achar felicidade em outro lugar...
- Não.
- Como assim não?
- Veja, você depende dessa pessoa, ela não depende de você, por isso ela ficaria melhor sem você, entende?
- Não...
- É assim, como você depende dela, você pesa, como ela não depende de você, você perde o apoio e é isso.
- Você diz então que, se eu sair, ela vai ter mais espaço para as coisas que fazem bem e eu vou ficar sem nada?
- Isso mesmo.
- Então se eu sair da vida dela...
- ... ela seria absolutamente melhor e mais feliz...
-... mas eu não teria nada mais?
- Nada mais.
- Se eu não teria nada mais... e ela seria feliz...
- O que você faria?
- Eu sairia da vida dela.
- E o que você está esperando?
- Oi?
- O que você está esperando pra ir?
- E ela seria feliz?
- Sim.
- Eu não teria nada, nunca mais?
- Sim.
- O que você faria?
- Eu sairia completamente.
- Eu sairia completamente.
- O que você está esperando?


























































































sábado, 16 de junho de 2018

Danis e Nanaê - Céu e la mar (Parcela 1/2)

Olá, você está ouvindo? Consegue ouvir minha voz? Eu espero que sim. 
Isso aqui não é pra dizer que eu amo você ou pra agradecer, mesmo que eu realmente ame e realmente seja grata. E eu amo e sou grata. Na verdade, isso aqui é só pra dar nome a você. Isso aqui é um jeito de me expor ao expor você. Isso aqui é maior esforço de me separar do meu lugar seguro de "autora", não é ela que escreve, não vou me esconder na voz dela ou pelo menos vou tentar com muito afinco. Não sei ainda do que posso chamar isso, mas acho que tão pouco importa. Isso, como vários outros, veio por conta, as palavras começaram a surgir na minha frente e eu sabia que devia tomar nota (talvez seja a "autora" falando mesmo, mas eu não estou me escondendo, estou aqui também). Partes do que escrevo vieram em inglês, então farei o meu melhor para traduzir pra você. 
Comecei a escrever na minha cabeça e implorei logo por um banco no ônibus com medo de perder as palavras (e algumas foram perdidas), eu estava pensando muito no fim, em todos os fins, os bons, os ruins, os necessários, os forçados, todos eles e francamente não sei o que fazer quanto a isso, não sei por que as vezes sinto tido findar (e aqui eu já tenho que segurar as lágrimas - ou seja, estou entrando em alguma verde minha que nem sempre é fácil - ), mas eu não estou escrevendo sobre o fim ou como sinto as coisas escorrendo por entre meus dedos, esse não é o ponto. O ponto é reconhecer você, só não sei bem como, só queria reconhecer você sem rodeios, sem meias palavras, sem ela e, para isso, parece que preciso de mim, acho que é aí que o fim entra. Ele faz parte como você faz parte. Não é uma parte que escolhi, mas é uma que existe, é uma parte que que importa. (Eu perdi mais algumas palavras, é difícil escrever andando). Acho que tinha a ver com o céu e o mar, aqueles que são longe de mim, os lugares que quero estar, o infinito. Talvez seja esse o ponto, o não-fim que é assustadoramente reconfortante, mas também... bom, assustador. Não tenho escolha quanto ao céu e o mar, a existência deles é muito mais do que eu posso controlar, assim como não posso controlar sua existência, se ela vai me dar luz ou me engolir, por vezes fria, por vezes relaxante e, antes que ela assume o controle, você está longe do meu controle e pode escapar por entre meus dedos facilmente (e lá vou eu chorar de novo).   
Eu reconheço aqui também esse medo, reconheço seu nome e a sua parte. Abro aqui algumas verdades, algumas dores e algumas felicidades (é quase como uma coisa  essa coisa sendo eu). Pois bem, não sei se é só isso e provavelmente não seja (e eu sei que não é), mas é o tanto que posso dar agora. Não sei como essas palavras chegaram a você, sei que vou deixar que escolha, assim como escolhi escreve-las. 
E mais uma coisa, caso queira, me pergunte da música que anda rondando minha cabeça... esse é outro jeito de expor um pouco mais o que eu gostaria. Eu gostaria de dizer muito mais, muito, muito mais.

Esse é o fim, esse fim, disso e de mais nada.  

quarta-feira, 13 de junho de 2018

A Visita

Eu lhe deixei entrar.  
Mostrei a sala toda arrumada e você foi logo para a cozinha, a louça toda na pia, antes que eu pudesse fazer alguma coisa você já estava no corredor, as paredes todas precisando de uma mão de tinta e num piscar você já corria em direção ao quarto, corri mais e me pus em frente a porta “não, está uma bagunça”, mas você insistiu, insistiu e insistiu, quando dei por mim a porta atrás estava aberta e você espiava por cima do meu ombro. Que desastre.  
 Eu tinha certeza que você encerraria sua visita, a casa era uma bagunça! Não podia ter ficado apenas na sala? A sala! “Você não quer voltar para sala?”, você chacoalhou a cabeça negativamente e eu perdi todas as esperanças de colocar aquela visita de volta nos trilhos. 
 Quando olhei para cima você não estava mais lá. “Bom”, pensei, “era de se esperar que fosse embora depois ver essas paredes tortas e toda a confusão, esse quarto! Por que eu não dei um jeito naquele lugar, tipo uma fechadura?! Agora já foi...” e continuei a pensar e repensar em todas as reformas, cadeados e tudo mais que devia implementar, arrumar, refazer, trocar, reposicionar, senhas, códigos, ... eu já estava desolada, jamais daria conta de tudo isso. Foi então que... 
  
- Você não vai entrar? 

segunda-feira, 11 de junho de 2018

Essas rimas sem graça


Você disse que tem medo do mar,
“Eu não sei nadar”, tentou explicar. 
 Eu só queria te dizer que existem tantas outras formas de mergulhar
 e tantos outros jeitos piores de se afogar. 

O mar pode ser sim traiçoeiro
sem o menor aviso te engolir por inteiro. 
Mas eu só queria dizer que morri primeiro 
e o mar nem foi testemunha do meu desespero.

domingo, 10 de junho de 2018

Faixa Amarela

Era como se fosse uma medida de segurança, daqui não se pode passar, essa é uma linha incruzável, intransponível se quiser sobreviver. E eu tentava seguir à risca o melhor que eu podia, tentava não ceder ao impulso, ao desejo, a vontade, e se eu desse só um passo? Só uma espiada?...

Uma medida de segurança, mas não sabia de que estava me segurando. Era para não cair? Cair de onde? Cair de que? Cair no choro? Cair em tentação? E o que era que me tentava afinal?...


E se visse?


Se escrevesse?


Se ligasse?


Se tentasse?


E se perdesse?


Se precisasse?


Se quisesse?


E se fosse?


Se não fosse?


Se não quisesse?


Se não precisasse?


E se não perdesse?


Se não tentasse?


Se não ligasse?


E se não visse?


Se fosse?








PRA QUE CARALHO ESSA MERDA DE MEDIDA DE SEGURANÇA SERVE?!





























































































































































































lembrei ...