domingo, 9 de dezembro de 2018

Mantenha as Crianças Longe

Sabe como as pessoas tomam cuidado para não ficar falando coisas dos ex na frente dos atuais afim de evitar possíveis constrangimentos? Pois bem, crianças não tem isso. Crianças são capazes de dizer as coisas mais cruéis por pura inocência, elas não entendem que esse pequeno detalhe de trazer um fantasma do natal passado para o presente pode ser algo perigoso. Esse pequeno inocente deslize infantil aconteceu na noite em que ela foi embora.

Seriam as primeiras férias que ela passava com a minha família, ou seja, com meus pais, meus irmãos, seus maridos, esposas e filhos. Havíamos chegado a pouco e minha mãe mostrava o jardim da casa que eles sempre alugavam nessa época. Foi quando os filhos de minha irmã se aproximaram todos felizes, me perguntando quando a “titia Ana” ia chegar, falando de como ela havia prometido levá-los ao parque aquele ele ano. Minha mãe riu de nervoso e pediu desculpas, eu só fiquei lá parado, mas ela, ela logo foi dizendo para as crianças que a titia Ana não viria, mas se eles falassem onde ficava esse tal parque e se os pais deles deixassem ela mesma os levaria. As crianças ficaram extasiadas, saíram logo pedindo permissão e, como ela já estava acostumada a lidar com uma multidão de crianças, no fim da tarde partiu sozinha com as crianças em direção ao parque. 

Eles voltaram quase na hora do jantar, as crianças riam e relembravam com grandes sorrisos os momentos gloriosos que passaram, ela nem mesmo se sentou à mesa para comer. As crianças disseram que a titia estava muuuito cansada. Devia estar mesmo, quando subi ao quarto lá estava ela, deitada, ainda com as roupas que foi ao parque, morta. Tirei seus sapatos, deitei ao seu lado e também apaguei. 
Na manhã seguinte ela ainda dormia, lembro de pensar em como as crianças deviam ter a esgotado, então decidi descer e preparar um café reforçado. Na cozinha as crianças, que estavam em polvorosa para que a nova tia acordasse, contaram mais uma vez sobre como tinha sido a ida ao parque, como elas disseram a nova tia que ela era muito mais legal e esperavam que mesmo quando seu tio a deixasse, pois uma delas jurava que tinha ouvido que isso aconteceria em breve, que ela continuasse amiga deles, porque ela era muito legal,  elas gostavam muito da nova tia descolada. Não é a toa que ela devia estar exausta. 

Decidi aproveitar a história mal contada da minha sobrinha para fazer o que eu havia dito a sua mãe umas semanas atrás, que deixaria minha namorada muito em breve, nessas férias,  que ela deixaria de ser minha namorada para ser minha noiva. Coloquei o anel na bandeja que já estava cheia de frutas e torradas, um suco de laranja e café com leite que ela tanto adora, minha irmã me deu um sorriso de aprovação enquanto repreendia a filha por contar coisas que ela não sabia direito. Entrei no quarto,  chamei-a uma, duas, na terceira coloquei a bandeja sobre o criado mudo ao lado da cama e me sentei. Balancei, chacoalhei, dela nem sinal. 

Meus irmãos e seus filhos foram embora antes da ambulância chegar, com a desculpa de não querer estragar as boas memórias que eles tinham daquele lugar. Para meus eles, suas esposas, maridos e meus pais foi tudo uma leviandade da parte dela de acreditar em crianças, infantilidade dela de não querer por tudo em pratos limpos e egoísmo por ter feito isso lá, naquela época.

Agora eu via a ambulância partir com o corpo da minha sempre futura esposa. Eu não acho que ela tenha feito isso por mim, ela fez por causa de fantasmas, que há tempos a assombravam e ela parecia não conseguir ficar em paz. Um deles sei que foram meus sobrinhos que invocaram das piores maneiras, com as suas certezas, com seus “meu pai disse...”, “minha mãe sempre fala...”. Fantasma este que, por minha incapacidade de ver o quanto ela precisava lutar contra tantos outros, pesou até a mesa virar e ela desistir. Mas foram os fantasmas, todos eles que não a deixavam. Agora ela está em paz. Assim gosto eu de pensar.