terça-feira, 13 de setembro de 2016

Ela Disse...

    "Ela disse que estou me matando aos poucos" rabiscos perdidos no mar de desenhos desconexos. Rabiscos que me olhavam na cara e eu desviei o olhar, ou foi você que não quis me encarar? Sendo assim me contentei em não saber, só deixei que fizesse seu retrato enquanto perguntas saiam sem permissão e respostas eram covardemente dirigidas a folha de papel. É tão mais fácil imprimir dores que não lhe cabem. 
    Não se vire e não me encare, lhe dei o espaço para sua mente divagar longe da minha vida. Faça bom proveito e sorria, pois, eu me esforço a estar bem aqui. Por que não entende que existe uma barreira que não pode ser transposta? Eu não vou olhar. Mantenha a cabeça baixa, do que está fugindo? Seria de mim ou de você? Eu me recuso. 
    Antes que se vá, apague tudo, não foi por isso que pedi. Não é esse o combinado. Sorria e só então me deixe. Mas deixe, para que eu possa contemplar meu abandono, o que menos preciso é do seu desapego. 

    Ela disse que "estou me matando aos poucos" e aquilo ecoa desde então como a única verdade que tenho. Como se toda minha vida fosse apenas uma questão de morte. E você quis saber, só que eu não quero dizer. Sem poder jogar mais em seus ombros cansados, me perco em mim num emaranhado  de frases que não saem. 
    Não posso encarar o que sou, muito menos você, que me dispara ao peito fazendo buracos por onde tudo tenta escapar. Como poderia derramar meu sangue sobre seus olhos que não se sustentam? Pode se tranquilizar, eu sei. Vou parar por aqui, vou tapar os buracos de tudo que me fere e nunca mais darei espaço para que me esvazie. Reforço as paredes na sua presença. 
    Antes que eu me vá, deixo aqui, contudo, algo que não pude por de volta. Já não pertenço a esse lugar há um bom tempo, não precisa se preocupar, estou bem. Lide apenas com você que já me contento. 

    Ela disse que estou me matando aos poucos.