quinta-feira, 31 de maio de 2018

Nosso Amor

Nós dois éramos como um par de vasos, não, somos como um único vaso, peça única, onde tudo faz parte da mesma extensão, da mesma coisa, vários pedaços formando um único, um todo.  
Eu já não sabia mais onde você começava e onde eu terminava, talvez fosse eu que estivesse começando e você terminando, não sei.  
E como nada é simples, além de sermos um, não sabíamos quem éramos. Talvez eu só fosse mesmo você, você consegue se achar aqui dentro?  
Nada é simples e eu vi nossas fronteiras cada vez mais nítidas e cada vez mais borradas. Eu não sou você, é claro, mas sou parte, você também é parte de mim? 
Simplesmente não se aplica, porque não estou abrindo mão da minha parte que é você, talvez eu tenha tentado a matar várias e várias vezes, ou foi você que quis matar a sua parte que sou eu?  
Eu sinto muito pela confusão, a minha, a sua, a nossa. Sinto muito, porém não posso fingir que sinto tanto, pois o que sinto não é muito, chega a ser insuficiente quando realizo que senti tarde demais (Ou foi você que sentiu muito cedo?).  
Somos indivíduos, sim.  
Somos dois, sim.  
Só não sei qual dos dois sou eu.  
Sei, contudo, que não me importo, sou feliz sendo a sua parte de mim, ainda que você não queira ser a minha parte de você. (Você quer?). É muito mais fácil aceitar ser quem sou, quando aceito quem você é.  
Somos indivíduos, sim.  
Somos dois, sim.  
Mas ainda somos um todo. 

quarta-feira, 30 de maio de 2018

A Dona

Já fazia dias que estava caminhando quando finalmente a encontrei ali, parada, como se estivesse me esperando e nada mais. Tentei esconder todo meu nervosismo, todas as minhas dúvidas, expectativas, tentei ser a versão mais calma de mim possível. 
- Pra onde eu devo ir? 
Ela me olhou e, dizer nada, apontou um dos caminhos atrás dela.  
- Esse é o meu caminho? - perguntei meio desconfiada. 
- Você perguntou, eu respondi. - a voz dela era firme e decisiva, mas ao mesmo tempo parecia se propagar em um tempo único, de maneira leve. 
- Sim, mas se eu for por aí, eu vou chegar a onde quero? Eu vou conseguir o que quero? - uma chance dessas eu não podia desperdiçar, mas também não podia ir cegamente. 
- E a onde você quer chegar?  
- Eu só quero que as coisas deem certo...  
- Pois bem, por ali. - e ela voltou a apontar o mesmo caminho. 
- As coisas vão dar certo? - eu definitivamente não estava convencida. 
- Coisas irão dar certo. - a voz dela era como uma onda que vem, vem, vem, quebra de uma vez e volta para da onde veio. 
- Mas só se eu for por ali - apontei para o caminho atrás dela. 
- Você deseja outra coisa? 
Sujeitinha difícil essa. Respirei fundo.  
- Eu só quero que 
- As coisas deem certo - ela me interrompeu. 
-Sim, isso.  
Ela permaneceu estática, me encarando e apontando o mesmo caminho. Eu tinha que tentar alguma outra abordagem. 
- E se se eu for por ali? - apontei em outra direção. - As coisas ainda vão funcionar? 
Ela pareceu ponderar, mas depois de algum tempo comecei a notar que ela apenas não se mexia e apontava o mesmo caminho do começo. 
- E os outros caminhos? Eles não dão certo? - insisti.  
- Ali, - ela apontou um terceiro caminho - você diz?  
- É... pode ser, ali, funciona? 
- Você acha que funciona? 
Eu já havia ouvido falar muito dela, da Dona, ouvi as várias histórias de todos que um dia toparam com ela, que tiveram essa chance, sabia que ela podia ser dúbia, confusa, mas que com certeza, era o que relatavam todos, ela definitivamente sabia do que estava falando. "Não se deixe levar por ela, porém", me alertaram, "ela sabe, sabe mesmo, mas não quer dizer que ela é um ser generoso e benevolente". Essa é a minha chance de fazer as coisas da maneira correta.  
Eu precisava ser mais esperta que ela ou pelo menos tão esperta quanto, para entender os enigmas que ela me colocava a frente. Obviamente o primeiro caminho que ela me apontou não devia ser o correto, era fácil demais. O caminho que eu apontei também não devia ser, pois ela nunca cogitou que eu devia ir por ali. O terceiro caminho por sua vez, parecia uma opção a se considerar... só que... 
- Já sei!  
- Então por onde? 
- Ali - e indiquei um quarto caminho que era paralelo ao terceiro, ia mais ou menos no mesmo sentido do primeiro e passava longe do segundo. 
Ela então me deu passagem e quando passei ao seu lado, ela inclinou a cabeça na minha direção e disse: 
- Eu não posso lhe obrigar a seguir um caminho que você mesma já não tenha escolhido ir.  
Ela se virou para frente novamente e eu segui meu caminho, certa de que tinha algo de muito diferente na voz dela.  

sábado, 26 de maio de 2018

Seus Olhos

Quando você chegou não me abraçou e, mesmo sem sono, mesmo sem convite, eu me apoiei em você e permiti me acalmar na sua respiração, contar as batidas do seu coração, enterrada em você. Sonhei e me libertei. 
 Tanta era a paz, tanta era a felicidade que nem sei, me fundi no seu calor, no seu peito descobri um lugar seguro. Se eram seus braços ou se era amor, já não sei definir... eram suas mãos, seu corpo ou uma benção, só sabia que ali meu mundo pertencia, parava e se abastecia. Ah, energia... 
Me dói te soltar, me causa terrível agonia separar minha alma da sua e sentir o frio do qual você me protege. É sempre uma provação essa sensação meio mórbida de acordar sem você na cama gelada, no banco duro, na vida sem vida, acordar em mim sem você. 

sábado, 12 de maio de 2018

Inundação

Ai ai Tristeza, logo eu que nunca fiz questão de te conhecer, logo minha casa você decidiu invadir. Já cansei de dizer para você ir, enche e enche a pança e diz que fica só até amanhã e, na manhã da sua partida, diz que é só até o almoço e fica para janta.

Ai ai Tristeza, logo eu tão forte não sou capaz de expulsar-lhe a vassouradas... Fica, pode ficar, de inconveniente já é parte da decoração.