quinta-feira, 25 de agosto de 2016

A Suicida

Tudo que ela pensa é em se atirar na frente dos carros, mas então lembra que há uma possibilidade de sobrevivência, podendo apenas quebras as duas pernas, além de que, ao se atirar no meio da via, pode causar complicações para pessoas que nem ao menos sabem o que se passa e serão obrigadas, de uma maneira ou outra, a participar desse fim. Ela simplesmente não poderia suportar a ideia de quebrar as duas pernas.

A Madame

    Ela sobe as escadas e, de relance, ao passar pela porta, no corredor enfeitado com um belíssimo papel de parede importado, dá boa noite as crianças.  Em seu quarto, ela tira a maquiagem, troca sua roupa de gala por seu pijama de seda, o diamante vermelho e as esmeraldas são cuidadosamente retirados e guardados, os sapatos italianos estão devidamente estocados no armário de mogno africano trabalhado. Ela deita em sua cama gigantesca com dossel e lençóis de inúmeros fios que são tão suaves como sua pele delicada. E já não havendo nada, deixa-se embalar pelo sono, pela tranquilidade e pelas incontáveis lágrimas que habitam seus travesseiros, sempre na esperança que esta será a noite em que ele não virá, não subirá as escadas, não passará pelo quarto das crianças e muito menos se deitará em sua cama. 

domingo, 21 de agosto de 2016

Aqui Dentro.

    É o sabor de pão de queijo queimado, são as lágrimas presas eternamente em meus olhos, as lembranças que se repetem suprimindo tudo que eu gostaria de recordar, mas que vai se esvaindo por entre meus dedos sem que eu possa controlar. E eu gostaria de contar em detalhes tudo, só que também tem essa coisa das palavras engasgadas.
    Gostaria de gritar ao mundo.
    Tudo que tenho evitado para não me deparar com lágrimas e lembranças que vão sair e se explodir em mim.
    Gostaria de gritar ao mundo.
    São lembranças, sabores, lágrimas, uns que não se vão, outros que eu faço de tudo para segurar e me traem. Traída na minha própria traição de mim.
    Gostaria de gritar ao mundo.
    Mas não grito, me desespero, me calo e fico contida dentro desse ciclo de músicas proibidas, lembranças que desaparecem e são repostas por outras que poderiam desaparecer. Não tenho controle, não quero controle, é amargo, é queimado, é salgado, é lágrima que escorre por dentro e se prende na beira do precipício.
   É loucura, piração, tristeza e babaquice. É desconexo, sem motivo e largado.
   Gostaria de gritar enquanto me aquieto.
     
   ...

Venha Ver!

    "Você me parece familiar" eles dizem, "Não te conheço de algum lugar?" Ora, como eu poderia responder a isso? Então abro um sorriso meio sem jeito, dou de ombros, balanço a cabeça em negação enquanto tento me afastar e, de repente, como se uma negativa tivesse algum efeito certeiro sobre a memória, os olhos deles se iluminam e a pergunta, que mais afirma do que pergunta, sai de suas bocas com um tom de obviedade profunda "Você é aquela menina da TV...?".
    Como cheguei aqui? É o que mais me pergunto, mas não se engane, não estou aqui para lhe levar de volta aos meus "dias de glória" que antecederam toda essa aflição. Não, você está aqui para me ver em ruínas, falhando, sorrindo e acenando à medida que minha decadência me consome. Você está preso comigo nesse replay eterno de tortura.
    As pessoas vão continuar a me reconhecer e a me perguntar se sou a menina que não pode mais mostrar a cara. E você vai assistir minha queda, vai me ver despencar até que não sobre mais nada de mim. E mesmo quando eu me for você vai continuar aí, olhando, apenas observando meu corpo inerte e acabado.
    Caso não enlouqueça e se mantenha firme na derrota final, se estiver preparado e recuperado de mim, poderá ir embora atrás de mais um declínio para assistir, mas lembre-se de ficar até o fim.

quarta-feira, 17 de agosto de 2016

O Reino de Iemanjá (Me Leva)

Eu queria ser sereia para poder viver no mar
Deus que me perdoe, mas prefiro o reino de Iemanjá
No desespero peço que as ondas venham me lavar
Deus que me perdoe, mas prefiro o reino de Iemanjá
Mais uma vez apelo antes que eu me vá
Deus que me perdoe, mas prefiro o reino de Iemanjá
Já não me resta outra saída senão nessas águas me banhar
Minha alma já foi levada
Eu prefiro o reino de Iemanjá.

segunda-feira, 15 de agosto de 2016

Pequeno Bilhete Ao Léu (Para Quem?)

Por onde andas?
Onde anda seu sorriso?
Seus passos, seus modos
Sua vida, sua face
Para onde foi?
Por onde andas
que não andas mais comigo?
Sigo a te esperar em qualquer horizonte.

Volte.