quinta-feira, 6 de junho de 2019

Antes que todos se vão

Todos meus amigos estão indo embora sem se despedir 
E eu não quero um bilhete 
Não quero adeus
Todos meus amigos estão indo embora sem se despedir 
E eu não quero um abraço 
Não quero chorar 
Todos meus amigos estão indo embora sem se despedir 
E eu não quero ir 
Não quero 
Todos meus amigos estão indo embora sem se despedir 
E eu não quero deixar 
Não quero implorar 
Todos meus amigos estão indo embora sem se despedir 
E eu não quero 
Não quero não quero 
Todos meus amigos estão indo embora sem se despedir 
E eu não quero aceitar 
Não quero desamparo 
Todos meus amigos estão indo embora sem se despedir 
E eu não quero um fim 
Não quero acabar 
Todos meus amigos estão indo embora sem se despedir 
E eu não quero ir
Não quero não quero 
Todos meus amigos estão indo embora sem se despedir 
E eu não quero saber 
Não quero participar 
Todos meus amigos estão indo embora sem se despedir 
E eu não quero ver 
Não quero culpar 
Todos meus amigos estão indo embora sem se despedir 
E eu não vou 
Não quero bilhete
Todos meus amigos estão indo embora sem se despedir 
E eu não quero um adeus 
Não quero partir
Todos meus amigos estão indo embora sem se despedir 
Pela última vez e mais uma vez
E não há o que se possa fazer 

Visões



Gente

Gente velha

Gente nova

Gente

Gente aglomerada

Gente velhanova

Gentegente

Aglomerada

Gente nova

Novavelha

Gente gente gente

Velha

Nova

Velha

Nova

Aglomeradagente

Genteglomerada

Velhavelhavelhanovavelhanovanovavelhamaisgentenovavelhavelhanovavelhanovanovanovagentevelhagentenovaaglomeradagenteesprimidagentevelhanovavelhavelhavelhanovavelhanovanovavelhamaisgentenovavelhavelhanovavelhanovanovanovagentevelhagentenovaaglomeradagenteesprimidagentevelhanovavelhavelhavelhanovavelhanovanovavelhamaisgentenovavelhavelhanovavelhanovanovanovagentevelhagentevemmaisnovaaglomeradagenteesprimidagenteesprememaisvelhanovavelhavelhavelhanovavelhanovanovavelhamaisgentenovavelhavelhanovavelhanovanovanovagentevelhagentenovaaglomeradagenteesprimidagentevelhanovavelhacabemaisvelhavelhanovavelhanovanovavelhamaisgentenovavelhavelhanovavelhanovanovanovagentevelhagentenovaaglomeradagenteesprimidagentevelhanova

Gente

Nova

Gente

Velha

Velhagentenovagente

Segue viagem.



domingo, 9 de dezembro de 2018

Mantenha as Crianças Longe

Sabe como as pessoas tomam cuidado para não ficar falando coisas dos ex na frente dos atuais afim de evitar possíveis constrangimentos? Pois bem, crianças não tem isso. Crianças são capazes de dizer as coisas mais cruéis por pura inocência, elas não entendem que esse pequeno detalhe de trazer um fantasma do natal passado para o presente pode ser algo perigoso. Esse pequeno inocente deslize infantil aconteceu na noite em que ela foi embora.

Seriam as primeiras férias que ela passava com a minha família, ou seja, com meus pais, meus irmãos, seus maridos, esposas e filhos. Havíamos chegado a pouco e minha mãe mostrava o jardim da casa que eles sempre alugavam nessa época. Foi quando os filhos de minha irmã se aproximaram todos felizes, me perguntando quando a “titia Ana” ia chegar, falando de como ela havia prometido levá-los ao parque aquele ele ano. Minha mãe riu de nervoso e pediu desculpas, eu só fiquei lá parado, mas ela, ela logo foi dizendo para as crianças que a titia Ana não viria, mas se eles falassem onde ficava esse tal parque e se os pais deles deixassem ela mesma os levaria. As crianças ficaram extasiadas, saíram logo pedindo permissão e, como ela já estava acostumada a lidar com uma multidão de crianças, no fim da tarde partiu sozinha com as crianças em direção ao parque. 

Eles voltaram quase na hora do jantar, as crianças riam e relembravam com grandes sorrisos os momentos gloriosos que passaram, ela nem mesmo se sentou à mesa para comer. As crianças disseram que a titia estava muuuito cansada. Devia estar mesmo, quando subi ao quarto lá estava ela, deitada, ainda com as roupas que foi ao parque, morta. Tirei seus sapatos, deitei ao seu lado e também apaguei. 
Na manhã seguinte ela ainda dormia, lembro de pensar em como as crianças deviam ter a esgotado, então decidi descer e preparar um café reforçado. Na cozinha as crianças, que estavam em polvorosa para que a nova tia acordasse, contaram mais uma vez sobre como tinha sido a ida ao parque, como elas disseram a nova tia que ela era muito mais legal e esperavam que mesmo quando seu tio a deixasse, pois uma delas jurava que tinha ouvido que isso aconteceria em breve, que ela continuasse amiga deles, porque ela era muito legal,  elas gostavam muito da nova tia descolada. Não é a toa que ela devia estar exausta. 

Decidi aproveitar a história mal contada da minha sobrinha para fazer o que eu havia dito a sua mãe umas semanas atrás, que deixaria minha namorada muito em breve, nessas férias,  que ela deixaria de ser minha namorada para ser minha noiva. Coloquei o anel na bandeja que já estava cheia de frutas e torradas, um suco de laranja e café com leite que ela tanto adora, minha irmã me deu um sorriso de aprovação enquanto repreendia a filha por contar coisas que ela não sabia direito. Entrei no quarto,  chamei-a uma, duas, na terceira coloquei a bandeja sobre o criado mudo ao lado da cama e me sentei. Balancei, chacoalhei, dela nem sinal. 

Meus irmãos e seus filhos foram embora antes da ambulância chegar, com a desculpa de não querer estragar as boas memórias que eles tinham daquele lugar. Para meus eles, suas esposas, maridos e meus pais foi tudo uma leviandade da parte dela de acreditar em crianças, infantilidade dela de não querer por tudo em pratos limpos e egoísmo por ter feito isso lá, naquela época.

Agora eu via a ambulância partir com o corpo da minha sempre futura esposa. Eu não acho que ela tenha feito isso por mim, ela fez por causa de fantasmas, que há tempos a assombravam e ela parecia não conseguir ficar em paz. Um deles sei que foram meus sobrinhos que invocaram das piores maneiras, com as suas certezas, com seus “meu pai disse...”, “minha mãe sempre fala...”. Fantasma este que, por minha incapacidade de ver o quanto ela precisava lutar contra tantos outros, pesou até a mesa virar e ela desistir. Mas foram os fantasmas, todos eles que não a deixavam. Agora ela está em paz. Assim gosto eu de pensar. 



segunda-feira, 1 de outubro de 2018

O Drama que Veio dos Céus



A chuva fina já caia, espalhando seu abraço frio, dilacerando a pele de quem se atrevesse a encara-la. Não bastasse a punição, sem aviso prévio, infligida pelas gotas, o céu deixava sua opinião sobre a situação, a mensagem era clara “não, não vai haver alívio, vocês merecem um bom castigo”. Quem afrontaria os céus?

E se pensa que poderia se esconder, se abrigar dessa cruel pena imposta por entes raivosos que sabiam exatamente como fazer para destruir todo seu ser, não poderia. URROS E MAIS URROS CORTAVAM A ESCURIDÃO COM SEUS FLASHS HORRIPILANTES. Não há para onde fugir, não há para onde correr. Não, não vai haver alívio, vocês merecem um bom castigo.

A tempestade já era agora de tamanho tal que nem mais me dava ao trabalho de sonhar com seu fim. Já estava tudo inundado. Já estava tudo estragado. Já não havia uma brecha se quer no breu que se formou tão rapidamente. Não, não vai haver alívio, você merece um bom castigo.

Restou apenas o desespero frente ao cenário nada favorável que só tendia a piorar e piorava e piorava e afogava e esmagava. Foi quando o vento veio mostrar seu apoio. Veio rápido e com força, veio de uma vez e tratou de aniquilar os poucos corajosos sobreviventes. “Como se atrevem a ir contra nossas ordens? Já não estava suficientemente explícito que se encolher e tremer diante de nós era conduta obrigatória?”, as palavras doíam e carregavam. Não, não vai haver alívio, você merece um bom castigo.

O pandemônio instaurado já tomava proporções catastróficas irreversíveis. Deixou de ser apenas dor e angústia para se tornar também medo e pavor. Uma noite sem fim, sem luz, sem cor. Não havia defesa, não havia escape e não, não haveria alívio, o castigo era merecido.

Quem cansaria primeiro? Podia ser só uma questão de esperar... mas dada as atuais circunstâncias não parecia haver o que esperar. Era uma tempestade imensurável em sua magnitude, imponente, sem trégua. Chuva fria de facas, céu irritado e ausente de luminosidade, vento fortes e implacáveis, todos a postos contra tudo e contra todos. Contra mim. Do tipo que não alivia, que castiga, que deixa óbvio sua culpa.

É só o que existe, é só o que resiste sem encontrar qualquer obstáculo. Presa fácil, sem proteção, como haveria de lutar? Não há como ou porque ir contra a vontade dos céus. É ou aceitar e respirar com dificuldade ou testar a morte rápida e dolorosa. Mas é dolorosa também a respiração, sempre por um triz debaixo desse torrencial. Se mereço e não há alívio, melhor deixar a enxurrada levar.

E ela é forte, não distingue, não tem pena e lhe leva pelo caminho de pedras, pedras, pedras, pedras






                                    Pedras



                                                                                            Pedras


Pedras 
Pedras                                                                Pedras





Pedras                                                  Pedras

   Pedras




                      Pedras                                                                          Pedras
     






E ao longe até se escuta “que lindo dia!”, só que ninguém vê a tempestade como deve se ver. “O castigo é seu por você”, só que ninguém sente a tempestade como deve ser. É o fim dos tempos e não há nem guarda-chuva. É o fim dos tempos e está claro que é somente minha culpa.




quinta-feira, 6 de setembro de 2018

A Pintura

Elas brincam e correm, o lago que era tranquilo estremece e vibra. Talvez seja hora delas irem embora.
As risadas ecoam por entre as árvores que chacoalham os pássaros e outros seres para longe. Talvez seja hora delas irem embora.
Não é como uma pintura onde o sol brilha estático, fazendo com que se escute o som ao longe das crianças numa ciranda eterna e alegre. É um incomodo eterno de uma lembrança ao longe fazendo com que todo o som fique estático. 
É perturbador as crianças loucas, desvairadas, sem cuidado na beira do lago... Os sinos tocam, o lago se agita, as árvores trazem seus galhos mais perto, alvoraçados, frenéticos... é o fim... o som das crianças cada vez mais distante, até que morrem por completo.


O lago tranquilo é como um espelho, as árvores se afastam e recebem de volta seus moradores invisíveis. o sol se põe fora de alcance por entre nuvens espessas que não deixam a luz passar.

Agora temos uma pintura de um fantasma de uma ciranda que há muito se foi, quase sem deixar rastros, escondendo os sapatinhos e as bonecas, escondendo... 

Ainda bem que foram embora.

sexta-feira, 31 de agosto de 2018

Eu Sempre Soube

Você pode não perceber, mas para mim é muito claro.
Você pode achar que é loucura da minha cabeça, mas para mim é tudo muito claro.
Você talvez tente me convencer do contrário, mas quero que entenda...
Não estou te deixando, não estou desistindo.
Não vou embora, mas quero que entenda...
Nunca foi sobre como nos apaixonamos, nunca se tratou de como nos aproximamos, mas de como terminamos.
Desculpa soltar as coisas assim, mas já atingimos o pico e o resto é ladeira, eu sinto isso em todas as lágrimas que escondo de você. Eu sinto muito e peço desculpas por todas as coisas mais que irei esconder.
Não se culpe, não se martirize por isso, é que no fundo eu sempre soube que eu veria a felicidade e que ela iria embora, pois não aprendi a faze-la ficar.
Você não precisa me prometer nada, eu sei, eu sei que amanhã é mais longe que hoje.
Não se desespere, não decore essas palavras, deixe-as habitarem o fundo de sua mente e quando chegar a hora, o momento que você estiver pronto, elas virão para dizer que está tudo bem, tudo bem em dizer adeus, eu já sei.

sábado, 14 de julho de 2018

A Única Resposta

Eles não tiveram um linda e romântica história, só se conheceram, sem mágica nenhuma, sem grandes acontecimentos, como a maioria dos encontros são. Só estavam no mesmo lugar, quase nem trocaram palavras. Nada parecia um indicativo de nada.

Dias passaram, semanas, meses, as palavras cresceram, os encontros eram sempre certeiros, as risadas, tudo foi acontecendo, sem nada realmente acontecer, de estranhos foram se tornando mais próximos e as distâncias diminuíram e diminuíram. Mas nada, nada parecia um indicativo de nada além do que se podia ver ali. 

Foram os olhos.

Ela primeiro se apaixonou pelos olhos, pelo seu formato. Ela olhava e olhava, queria poder desenha-los, reproduzi-los, estava fascinada com aquelas linhas, queria guardar, queria levar consigo. Era só isso, apenas olhos com uma forma muito bonita, nada mais. E nada, nada parecia um indicativo de nada.

Depois vieram as mãos.

Ela só contemplava, observava e fantasiava maneiras de explicar a si mesma o que via e a essa altura já sabia que não havia fotografia, desenho ou palavras para que os outros (e ela) entendessem o que ela via. Via nos olhos e via nas mãos.

Então chegaram os abraços.

Ela recebia todos, não negava um. Eram pequenas doses de felicidade, pequenas doses alívio, pequenas doses de calma e, de dose em dose, ela foi se viciando cada vez mais. Queria mais abraços, mais mãos, mais olhos, mas nunca teria coragem de pedir, só aceitava o que vinha. 

Não, ela não viu vindo ou pelo menos fingiu que não, fingiu que nada estava acontecendo. Fingiu que nada era um indicativo de nada, eram apenas fábulas na cabeça dela, ilusões de ótica, da ótica dela nele. E daí se ela queria aquelas mãos sempre segurando as suas? E daí que ela queria aqueles olhos, que já não eram apenas uma questão de formato, mas de alma, fossem seus? Apenas doses de um remédio, apenas doses de um carinho sem compromisso.

Só que aí veio a boca.

Se não fosse o bastante desejar, olhos, mãos e abraços, ela começou a cobiçar a boca. Queria porque queria aquela boca, que ela achasse caminho para a sua boca. Foi só nesse instante que se deu conta que, sejam lá quais mentiras ela havia contado a si mesma até então, não dava mais. Não havia mais como fingir para ela que nada era um indicativo de nada. Mas também não havia o que fazer, além de lidar com tudo aquilo e por limites mentais e lógicos num bando de sentimento louco.

E ele apareceu.

Apareceu mesmo, marcou presença e deu a ela tudo que ela pediu. Primeiro eram essas doses, olhares, mãos e abraços... mas a boca, ele definitivamente apareceu quando deu a boca. Ela desejou tanto, mais tanto, que quando sentiu a boca dele na sua, nem parecia real. Ele havia mesmo virado o rosto? Havia mesmo encurtado a última distância, a última barreira? Havia.

Não, eles não têm nenhuma história engraçada de como o destino os uniu ou como o Universo os fez trombar numa tarde de primavera, enquanto corriam de um dia que tinha começado torto. Nada disso aconteceu. Foi só normal, eles só se viram e nem deram bola, conversaram e nem deram bola, como qualquer estranho que você possa vir a conhecer que lhe pergunte sobre o tempo, uma direção, não é importante. 

Não há história, além da cegueira, além das ilusões que foram confundidas com a realidade, que passou a ser descrita como ilusão para iludir. Há apenas um amor que surgiu ninguém-sabe-onde e que ela nunca será capaz de descrever... então o olha mais uma vez.