segunda-feira, 30 de maio de 2016

Meu Espelho

    Contemplo os estilhaços do que antes fora um belo espelho. A moldura está um pouco gasta, porém inteira, já o vidro partido se encontra aos meus pés, pouco sobreviveu junto à moldura.
    A queda foi simples, após anos pendurado no mesmo lugar ele caiu, o que me leva a acreditar que a parede ou o prego tenham se cansado do peso, talvez fosse um complô dos dois ou ainda o espelho tenha sofrido as consequências de um desentendimento entre os outros dois, não importa. O grito do espelho se partindo foi o que me acordou, mas ninguém mais ouviu.
    Há uma semana que os cacos estão espalhados pelo chão. Há uma semana e ninguém se dignificou a recolhe-los, ninguém parece notar ou se importar em pisar nos pedaços de vidro. 
    Contemplo os estilhaços do que antes fora um belo espelho. Talvez eu coloque tudo numa caixa e deixe ali num canto.

domingo, 22 de maio de 2016

Criando Dores

É um treco bizarro, tipo um aperto no coração, uma arritmia, isso super daria poesia, no minimo uma boa história com palavras melancólicas e/ou espertas, sabe? Onde a personagem sofre disso, algo que influência na vida, essa arritmia toda vez que ela para, alguém que nunca para, acho que é isso...

  A história da menina que não para...

Pois veja que não era por falta de tentativa ou porque ela adorava a correria, era essa droga de arritmia. 
Toda vez que ela parava, lá estava ela, uma sensação bizarra, seu coração acelerando e apertando, então ela tinha que voltar a atividade e toda a dor passava.
Anos passam e é assim que ela vive, sem parar, sem nem mesmo entender o que a acomete, tudo que sabe é que se para, dói. Melhor é continuar em movimento, melhor é continuar fazendo, nem dormir tá dando, porque para dormir tem que parar e ela não sossega, dói.
E assim foi assim, de movimento em movimento, sem paz que ela morreu.
E ainda dói.

quinta-feira, 19 de maio de 2016

A Verdade (Essa é para mim)

    Eu digo que sou sua amiga, conto para quem quiser sobre nossas coisas, como ficávamos conversando até nada fazer sentido, como você veio, digo o que você acha de mim, ou achava, afinal chegou a hora da verdade.
    Mesmo sendo mais nova uns três anos, que pode parecer pouco agora, mas já é muito, mesmo assim funcionou, nós eramos amigas, eramos.
    Envelheci, você também e alguma coisa nos levou sei lá para onde, mas foi longe, tão longe que quase já não sabia de você, tão longe que nada parecia sério.
    A verdade é uma só, eu não estava aí, eu não lhe ajudei, não segurei sua mão na certeza que ela sempre estaria aqui. E ela não está.
    A verdade é que não me sinto no direito de chorar por você ou sofrer por você, afinal onde eu estava? Onde eu estava? Não devia estar com você? Eu não estava e, as poucas que estive, fingi que estava tudo bem, por que não pôde ficar tudo bem?
    Agora eu sei como eu queria ter estado com você, mas agora não adianta, agora não adianta.
    Sei que sou um pouco de você, só que não me restou nada e me sindo indigna das suas lembranças.
    Nesse momento eu vivi o mesmo tempo que você e já sinto a culpa de ser a mais velha.
    A verdade é que sinto culpa de não ter sido quem você merecia e ainda estou aqui, chorando por você, pois nunca pude, aliás, pois nunca disse o que precisava. Culpa de viver e de apenas poder dizer

                                                    adeus. 

terça-feira, 17 de maio de 2016

Sobre Estar Bem

E eles perguntam "mas tem certeza que está tudo bem?" e eu respondo "É claro que está".
Eu sou uma dessa pessoas que você nunca vê chorar em público, mas que você sempre vê sorrindo e fazendo piadas e sorrindo, a típica pessoa feliz e de bem com a vida. Mas nem eu sou capaz de ser tão contente o tempo todo, aliás, ninguém é, acho que é até por isso que, até aqui, esse texto pareça tão comum, tão "eu já li isso antes milhares de vezes", e esse é o problema, você já milhares de vezes, mas ainda assim ou tenta se passar por feliz o tempo todo ou deixa de perceber que isso não é possível, mesmo para aquela pessoa que é a alegria da festa.
O fato é que nem sempre conseguimos enganar, as vezes damos uma escorregada, achamos que ninguém está olhando e somos pegos de surpresa com o "está tudo bem?". E você diz que sim, que está tudo ótimo, uma, duas, três vezes até ouvir "mas tem certeza?", então sorri e confirma novamente. Por que fazemos isso?
Gosto de pensar que fazemos isso pelo bem dos outros, para que eles não precisem ficar tristes, para que eles saibam que você é a rocha sólida que devem recorrer nos momentos de desespero. Penso que faço isso para que todos saibam que eu posso aguentar qualquer coisa que você esteja sofrendo, eu posso pegar uma parte para aliviar, posso absorver tudo para que você possa despejar sem problemas aquilo que você já não  aguenta mais. Afinal eu estou sempre bem, nada mais justo que você pegue um pouco dessa felicidade eterna que carrego e em troca eu pegue tudo que te faz mal.
Mas não é verdade, eu sofro, sofro minhas próprias perdas e então sofro com as suas e o que fica aqui dentro é o vazio, porque tristeza não enche, ela esvazia, esvazia suas vontades, seus desejos, tudo. E assim vou seguindo a vida, um vazio de cada vez e sorrindo. Sorrir é importante. Você nunca vai ouvir meus desencantos, só que eu estarei aqui sempre para os seus. Isso de certa maneira me faz feliz.
Então deixe-me esclarecer, eu tenho sentimentos, eu sofro, eu choro, eu entro em desespero, eu fico infeliz, mas talvez não tenha a coragem de deixar que os outros me vejam assim, então digo a mim mesma é que por vocês. Sou feliz segurando a sua mão.
E você se pergunta agora "mas tem certeza que está tudo bem?" e eu respondo "É claro que está".