sexta-feira, 25 de novembro de 2016

A Queda

    Ela se apega a cada matéria, a cada coisa em que pode por as mãos para não se desprender, para não ser esquecida e para não esquecer. Agarra com todas as suas forças ao mundo, seus músculos, já tão tensos, querem o alívio da liberdade, mas ela não deixa, ela não solta, ela se quebra e sente as dores dessa existência que ela se impõe pelos outros e não há ninguém nessa rua.
   Pra que? Pra quem? Por quê? Só me diz, por quê? Não percebe que não aguenta mais? Solte. A queda é curta, é dura, mas é finita e essa tortura já arrastou todas as correntes. Não há ninguém, nem agora, nem depois, nem mesmo antes, não haverá amparo. Percebeu agora?
    Solte.

Projeto Inacabado

    Seu cabelo desbotado e quebradiço é a prova definitiva de sua ruína, seu esmalte só não está mais destruído que seu coração e sua alma há anos não habita os olhos. Ainda respira, ainda sorri, mas morre um pouco mais a cada dia, apenas vagando, jogada de lá para cá.
    Suas roupas surradas como seus sonhos, suja, imundas esperanças que correm bueiro a baixo, levando consigo qualquer traço que um dia já a definiu. As veias entupidas de tanto desgosto sangram e os ratos se escondem nos últimos lugares seguros, roendo-os, fazendo-os sangrar até que já não haja escape. Morre-se tudo... um pouco mais cada dia.
    E ela anda. Olha para frente e anda, mexendo o corpo em putrefação, arrastando e deixando rastro da sua decomposição. Um dia não restará nem seu cabelo desbotado e quebradiço como prova de sua existência. Mais que morra.

segunda-feira, 14 de novembro de 2016

O Reencontro

    Nos encontramos e parecia que nada tinha acontecido.
    Nada havia florescido em minha ausência de você. 
    As paredes, todas as mesmas, entoavam a canção já conhecida. Era tudo familiar, nosso toque, sua voz, ainda assim, estranho. Um fantasma assombrava cada gesto e movimento, arrastando correntes. Descontente. 

    Nos encontramos e parecia que nada tinha acontecido.
    Nada havia morrido em sua ausência de mim.
   Você nunca me deixou, não me abandonou a deriva da minha própria loucura, não partiu todo meu ser já minguado pelos anos. Era como se fosse o começo, ainda assim, estranho. O fantasma ronda com suas lamúrias. Descontente.  

    Nos encontramos e parecia que nada tinha acontecido.
    Nada havia da nossa ausência de nós.
  Tudo tão normal como sempre foi, ainda assim, estranho. Esse fantasma... ainda carrego comigo. Pesado. Aqui. Descontente.
    
    É sério mesmo que para você nada mudou?

quarta-feira, 9 de novembro de 2016

Sobre Castelos de Areia

   




 "Sonhos são como castelos de areia, você constrói com cuidado, se diverte no processo, porém eles se vão, seja levado por uma onda, um vento mais forte, alguém pode simplesmente pisar e destruí-lo por completo, até mesmo você pode fazer isso. O ponto é exatamente esse: castelos de areia não são eternos.  Só não podemos deixar de construí-los, de novo e de novo. De certa maneira eles estarão sempre lá."






    Ela me disse isso uma vez, 
parece sem sentido agora, 
talvez porque eu tenha esquecido muitas das palavras 
ou talvez não faça sentido mesmo... 
sonhos não são castelos de areia, pessoas são.
 E a gente não pode refaze-las depois que se vão.
...

quinta-feira, 6 de outubro de 2016

Ele

    Ele é daquele tipo que é simpático... quando responde e, não, ele não vai falar com você, ele não se importa com a sua vida ou opinião. Mas calma, não é pessoal. 
    Se você tivesse a vida que ele leva, muito provavelmente, descobria, como ele descobriu, que há muito para ser respondido internamente, tanto, que é difícil para ele se ocupar do mundo externo e o mundo não se importa com ele. Poderia dizer até que esse é todo o ponto em questão: ele não liga para você, pois o mundo não liga para ele e continua a girar, impedindo que ele quite suas dívidas, daí chega você, que pouco importa.
   Você tem suas próprias perguntas a responder, eu sei, ele também, então você se pergunta, sim, mais uma, "se sou assim como ele, por que eu dou atenção e ele não?" Simples, aqui também não há resposta.
    Ele é simpático quando responde. E ele não vai falar com você, lide com isso, ele também está lidando.

Sessão Descarrego

    Chora! Mas chora agora! O que você está esperando? Um motivo? Esse, eu sei, que tem de montes, então para de inventar desculpas e chora! Deixe os olhos incharem e se avermelharem, se perca no meio dos soluços vamos! Qual é o problema? Chora!
    Grita! Grita mesmo e põe para fora! Toda essa pose é para que? Para quem? Não se sente sem ar? Então explode tudo que tem no seu peito e põe para fora, não adianta implodir! Não adianta deixar a bagunça entupir as vias aéreas novamente. Grita!
    Caia, vamos, pode cair, se jogar no chão, ninguém espera realmente que você passa por tudo isso sem se descabelar, você não deveria esperar. Foda-se a "dignidade", todo mundo parece esperar uma permissão divina para desmoronar. NÃO precisa de permissão! Caia!
    Faça agora! Depois não adianta fugir para casa e sucumbir atrás de suas paredes, o espetáculo é seu! Faça o número agora! O público aguarda! Faça agora!
    Vergonha? Vergonha é olhar esse mar de olhos desesperados e faze-los dizer que está tudo bem. Não está! Assuma! Repita: não está tudo bem!
    Mais alto!
 Não está tudo bem!
    De novo!
 Não está tudo bem!
    Mais uma vez!
 Não está tudo bem!
      Não está tudo bem!
          NÃO está tudo bem!
              NÃO está tudo bem!
                   NÃO está tudo bem!
                       NÃO está tudo bem!
                              NÃO.ESTÁ.TUDO.BEM!



          NÃO ESTÁ TUDO BEM!



E chora...

segunda-feira, 3 de outubro de 2016

Coisas Que Naiana Sabe e Você Poderia Aprender.

    Naiana é uma menina muito especial, a começar pelo nome, Naiana. Como se já não bastasse essa peculiaridade, pouco encontrada por aí, ela ainda tem cabelos em cachos, uma covinha de um lado só e uma voz muito sorridente, mas isso não é o que ela sabe, isso é o que ela é, de um modo ou de outro.
    O que essa incrível garota de São Bernardo, pasmem, sabe é que muitas vezes uma declaração de amor pode vir no formato de ódio num básico "eu te odeio" ou, quando tenta ser menos agressiva, vem em frases como "até que não te odeio muito" e também "até que vou com a sua cara", sendo esta última o ápice do amor, já que, de certa maneira, é uma frase positiva.
    Outra coisa que Naiana sabe bem é que nada vem completo, toda e qualquer informação necessita de estratégias bem definidas para que sejam compreendidas em sua totalidade. E tem que ficar de olhos abertos, uma pergunta errada ou a menos, e jamais se saberá o que estava sendo dito, até porque, isso é coisa que ela sabe também, no meio do processo de recebimento e passamento de informação, esta pode ser simplesmente esquecida e Naiana nada pode fazer além de esperar que sua fonte bote a cabeça no lugar e se lembre.
    Que ela é uma menina esperta, superatenta as nuances da vida, isso já ficou claro, porém, se ainda tem dúvidas da capacidade extraordinária de Naiana em saber das coisas, engula esse fato: ela diferencia, com maestria, o drama-espetáculo do drama-real. Aposto que você nem sabia que exista essas duas categorias! E ela já as domina, cortando a seco o drama-espetáculo para que não crie raízes e muito menos seja foco ou desculpa, e cuidado carinhosamente do drama-real para que passe e deixe de existir.
      E para encerrar (que fique claro que se fosse para listar todos os seus conhecimentos esse texto não teria fim), a última sabedoria que ela tem é sobre indivíduos que, no consenso, não possuem nada pulsando dentro do peito. Ela entende que, muitas vezes, esse vazio aparente não é pela ausência suprema e definitiva de coração, mas sim porque a gente olha no lugar errado. Naiana é mestra em achar corações em quem não tem e afirma "às vezes são até maiores que a maioria".






sábado, 1 de outubro de 2016

Batidas e Pancadas Me Fazem...

Carros, ruas, árvores, céu, tudo passa enquanto ele caminha ao léu.
Baratas, pedras, fumaça, tudo caminha enquanto ela passa.
Choros, risos, desgraças, mas um trânsito na cabeça de quem não relaxa.
Martelo, papel, corrimão, as coisas continuam e você não.

Anda sempre sem saber para onde vai, faz uma missa em nome do Pai,
(por quê?)
Tropeça, cai, não há motivos para sofrer mais.
Se desespera ao perceber que daqui já não pode ser,
não tem para onde ir e se vai,
continua andando sem olhar para trás.
Mais um perdido sem enterro.
Outro convidado do casamento.

O mundo não tem pena, tempo, entendimento, melhor então ficar aqui dentro
(por quê?)
Passa, olha, pensa, não quer sair da sua cabeça.
Lateja, pulsa, rasteja, se aqui tudo é favorável é justo que eu vença.
Assim segue, fala, é apenas uma vidraça de uma janela muito fraca.

Estilhaça, dorme, sorri, fácil se manter, deixa o corpo ir.
Corre, luta, se mata, se já está todo mundo meio morto que importa a sua, cara?
Resiste, grita e me diz
o que diabos estamos fazendo aqui?


terça-feira, 13 de setembro de 2016

Ela Disse...

    "Ela disse que estou me matando aos poucos" rabiscos perdidos no mar de desenhos desconexos. Rabiscos que me olhavam na cara e eu desviei o olhar, ou foi você que não quis me encarar? Sendo assim me contentei em não saber, só deixei que fizesse seu retrato enquanto perguntas saiam sem permissão e respostas eram covardemente dirigidas a folha de papel. É tão mais fácil imprimir dores que não lhe cabem. 
    Não se vire e não me encare, lhe dei o espaço para sua mente divagar longe da minha vida. Faça bom proveito e sorria, pois, eu me esforço a estar bem aqui. Por que não entende que existe uma barreira que não pode ser transposta? Eu não vou olhar. Mantenha a cabeça baixa, do que está fugindo? Seria de mim ou de você? Eu me recuso. 
    Antes que se vá, apague tudo, não foi por isso que pedi. Não é esse o combinado. Sorria e só então me deixe. Mas deixe, para que eu possa contemplar meu abandono, o que menos preciso é do seu desapego. 

    Ela disse que "estou me matando aos poucos" e aquilo ecoa desde então como a única verdade que tenho. Como se toda minha vida fosse apenas uma questão de morte. E você quis saber, só que eu não quero dizer. Sem poder jogar mais em seus ombros cansados, me perco em mim num emaranhado  de frases que não saem. 
    Não posso encarar o que sou, muito menos você, que me dispara ao peito fazendo buracos por onde tudo tenta escapar. Como poderia derramar meu sangue sobre seus olhos que não se sustentam? Pode se tranquilizar, eu sei. Vou parar por aqui, vou tapar os buracos de tudo que me fere e nunca mais darei espaço para que me esvazie. Reforço as paredes na sua presença. 
    Antes que eu me vá, deixo aqui, contudo, algo que não pude por de volta. Já não pertenço a esse lugar há um bom tempo, não precisa se preocupar, estou bem. Lide apenas com você que já me contento. 

    Ela disse que estou me matando aos poucos.

quinta-feira, 25 de agosto de 2016

A Suicida

Tudo que ela pensa é em se atirar na frente dos carros, mas então lembra que há uma possibilidade de sobrevivência, podendo apenas quebras as duas pernas, além de que, ao se atirar no meio da via, pode causar complicações para pessoas que nem ao menos sabem o que se passa e serão obrigadas, de uma maneira ou outra, a participar desse fim. Ela simplesmente não poderia suportar a ideia de quebrar as duas pernas.

A Madame

    Ela sobe as escadas e, de relance, ao passar pela porta, no corredor enfeitado com um belíssimo papel de parede importado, dá boa noite as crianças.  Em seu quarto, ela tira a maquiagem, troca sua roupa de gala por seu pijama de seda, o diamante vermelho e as esmeraldas são cuidadosamente retirados e guardados, os sapatos italianos estão devidamente estocados no armário de mogno africano trabalhado. Ela deita em sua cama gigantesca com dossel e lençóis de inúmeros fios que são tão suaves como sua pele delicada. E já não havendo nada, deixa-se embalar pelo sono, pela tranquilidade e pelas incontáveis lágrimas que habitam seus travesseiros, sempre na esperança que esta será a noite em que ele não virá, não subirá as escadas, não passará pelo quarto das crianças e muito menos se deitará em sua cama. 

domingo, 21 de agosto de 2016

Aqui Dentro.

    É o sabor de pão de queijo queimado, são as lágrimas presas eternamente em meus olhos, as lembranças que se repetem suprimindo tudo que eu gostaria de recordar, mas que vai se esvaindo por entre meus dedos sem que eu possa controlar. E eu gostaria de contar em detalhes tudo, só que também tem essa coisa das palavras engasgadas.
    Gostaria de gritar ao mundo.
    Tudo que tenho evitado para não me deparar com lágrimas e lembranças que vão sair e se explodir em mim.
    Gostaria de gritar ao mundo.
    São lembranças, sabores, lágrimas, uns que não se vão, outros que eu faço de tudo para segurar e me traem. Traída na minha própria traição de mim.
    Gostaria de gritar ao mundo.
    Mas não grito, me desespero, me calo e fico contida dentro desse ciclo de músicas proibidas, lembranças que desaparecem e são repostas por outras que poderiam desaparecer. Não tenho controle, não quero controle, é amargo, é queimado, é salgado, é lágrima que escorre por dentro e se prende na beira do precipício.
   É loucura, piração, tristeza e babaquice. É desconexo, sem motivo e largado.
   Gostaria de gritar enquanto me aquieto.
     
   ...

Venha Ver!

    "Você me parece familiar" eles dizem, "Não te conheço de algum lugar?" Ora, como eu poderia responder a isso? Então abro um sorriso meio sem jeito, dou de ombros, balanço a cabeça em negação enquanto tento me afastar e, de repente, como se uma negativa tivesse algum efeito certeiro sobre a memória, os olhos deles se iluminam e a pergunta, que mais afirma do que pergunta, sai de suas bocas com um tom de obviedade profunda "Você é aquela menina da TV...?".
    Como cheguei aqui? É o que mais me pergunto, mas não se engane, não estou aqui para lhe levar de volta aos meus "dias de glória" que antecederam toda essa aflição. Não, você está aqui para me ver em ruínas, falhando, sorrindo e acenando à medida que minha decadência me consome. Você está preso comigo nesse replay eterno de tortura.
    As pessoas vão continuar a me reconhecer e a me perguntar se sou a menina que não pode mais mostrar a cara. E você vai assistir minha queda, vai me ver despencar até que não sobre mais nada de mim. E mesmo quando eu me for você vai continuar aí, olhando, apenas observando meu corpo inerte e acabado.
    Caso não enlouqueça e se mantenha firme na derrota final, se estiver preparado e recuperado de mim, poderá ir embora atrás de mais um declínio para assistir, mas lembre-se de ficar até o fim.

quarta-feira, 17 de agosto de 2016

O Reino de Iemanjá (Me Leva)

Eu queria ser sereia para poder viver no mar
Deus que me perdoe, mas prefiro o reino de Iemanjá
No desespero peço que as ondas venham me lavar
Deus que me perdoe, mas prefiro o reino de Iemanjá
Mais uma vez apelo antes que eu me vá
Deus que me perdoe, mas prefiro o reino de Iemanjá
Já não me resta outra saída senão nessas águas me banhar
Minha alma já foi levada
Eu prefiro o reino de Iemanjá.

segunda-feira, 15 de agosto de 2016

Pequeno Bilhete Ao Léu (Para Quem?)

Por onde andas?
Onde anda seu sorriso?
Seus passos, seus modos
Sua vida, sua face
Para onde foi?
Por onde andas
que não andas mais comigo?
Sigo a te esperar em qualquer horizonte.

Volte.

sexta-feira, 29 de julho de 2016

O Começo

    Maldito caderninho! Não me entendam mal, é realmente muito fascinante admira-la enquanto sua mão se movimenta de um lado a outro e seu rosto muda de expressão como se ela vivesse num mundo a parte em sua mente, aliás, foi isso que me trouxe até aqui.
    Não me lembro exatamente que dia foi, mas estava quente e eu entediado esperando um amigo. Demorei um bom tempo para nota-la, acho que é um efeito que ela tem de se fundir com a paisagem e não ser percebida, porém, quando é avistada, passa a ser a única coisa que se vê, ou pelo menos assim foi comigo.
    Lá estava ela, sentada num canto contando em detalhes para seu caderninho o que se passava em seu mundinho, e eu finalmente tinha algo para passar o tempo, tentar adivinhar o que se passava naquela cabeça e quais eram as palavras que ela escrevia. Não sei se o tempo passou de pressa demais ou se realmente meu amigo chegou no mesmo instante que a vi. Fui embora com ele, olhando-a pela última vez... ou quase.
    Outro efeito que ela possui, melhor, habilidade, é de aparecer várias vezes na sua vida nos lugares mais inesperados, o que faz você se perguntar se ela sempre esteve lá e você não viu ou se ela está lhe seguindo, fazendo um dossiê sobre sua vida, o fato é que ela está lá.
    A primeira vez que contei aos meus amigos sobre essa menina, eles acharam que eu estava inventando, no mínimo exagerando as coisas. Porém, num desses dias que ela estava lá, também estava com um amigo. Pronto, agora ele estava sob o efeito dela e não demorou para que todos meus amigos quisessem vê-la e comprovar por eles a história.
    Depois de um tempo se tornou normal no meu ciclo de amizades alguém chegar dizendo que a tinha a visto neste ou naquele lugar, às vezes até mais de uma vez na semana, o Diogo jura que a viu mais de uma vez no mesmo dia! Ela se tornou parte de nós e falávamos dela como se ela fosse nossa amiga. Só que eu sou besta e acho que me apaixonei. Realmente de tanto topar com ela, falar dela, olhar para ela, eu sentia que já a conhecia e cada vez mais desejava encontrá-la.
   Cheguei, certa vez, a ir em vários pontos que ela fora vista, mas me senti um idiota e não fiz mais isso, só que ainda pensava muito nela, tanto que comecei a me policiar quando ela era o assunto, afinal como você explica para seus amigos que está afim de uma menina que vê por aí aleatoriamente sem parecer um completo babaca? Eu nunca encontrei uma maneira. Foi aí que o caderninho começou a me irritar.
    Não podia contar aos meus amigos o que sentia, nem para ela, já que, além de ser absurdamente bizarro um estranho chegar em você do nada, tinha aquele caderninho do qual ela não tirava os olhos, impedindo assim que eu tentasse fazer algum tipo de contato visual para buscar alguma abertura a minha aproximação por parte dela e, para piorar, últimos relatos reportaram que ela estava usando fones. E ela estava mesmo.
    Eu não podia ficar nessa para sempre e tinha certeza que a Ana já desconfiava de algo. Essa menina estava me deixando louco, como pode nessa cidade tão grande ela aparecer tanto?
    Bom, aqui estou eu, esperando o Daniel, e lá está ela.  Maldito caderninho! Podia simplesmente pegar fogo, desaparecer, não me importo! E que leve os fones juntos!
    Tá. Calma. Respira. Ainda tenho 20... não, 5 minutos, que tipo de pacto maligno ela fez com o tempo? Que seja! É agora.
    - Já parou pra pensar em quantas pessoas já sentaram onde está sentada? - ela olhou. - Ou já pisaram onde você pisou? - tirou os fones. - Veja, a cidade...

O Fim

    "Nós e a cidade grande somos um só." foi o que ele me disse, "Estaremos sempre juntos nesse espaço." e ainda me explicou como o espaço fica pequeno quando percebemos que nossas vidas estão todas juntas, "Pegadas nas pegadas.", circulando nesse coração que é a cidade. Eu não sou daqui.
    Passo em muitos lugares, mas são todos vazios, ninguém pôs os pés aqui, não há amigos, não há ódio, não histórias, não há nada. Se houve algo aqui, há muito já se esvaiu por alguma rachadura do concreto, pois é o tem aqui, uma imensidão de nada.
    Houve uma época em que havia nós, e essa época não está em nenhum canto dessa cidade. Nela agora só existe eu, e eu não sou daqui. E como um corpo estranho vou sendo combatida e sufocada até que não reste mais vestígios de mim também.
    Creio que meu coração parou junto com o seu.
    Mas você deve estar certo, a cidade vai bem, eu que não estou aqui.

terça-feira, 19 de julho de 2016

A Dívida.

    - Você me deve duas histórias.
    Foi assim sem avisar que ela chegou me cobrando coisas e dizendo para a minha cara de espanto:
    - Vo-cê-me-de-ve-du-as-his-tó-ri-as.
    E gaguejando meu cérebro se pôs a funcionar, precisava dar aquela mulher as histórias, isto estava claro.
    - Eu estava num show e tinham duas moças na minha frente. Primeiro não dei muita atenção, eram apenas duas pessoas aleatórias como todas as outras que estavam lá até que eu ouvi, da loura, "maçã verde" ao que a outra respondeu "Sério? Não sabia!" e a partir desse momento elas passaram a listar todos os alimentos que poderiam auxiliar no emagrecimento, "sopa seca mesmo" uma delas disse. Até aqui, apesar de tudo, não vi grandes problemas, só achei graça. Porém numa parte da conversa, que começou "você sabia que Fulana...", simplesmente achei que iam falar do carro novo, da viagem ou qualquer outra coisa que fosse a fofoca quente da vez, e eu estava certa, mas infelizmente a frase terminava com "... está doente". E o diálogo continuou assim "Jura?! Sabia não, o que ela tem?" indagou a loura, a outra fez uma pausa para criar suspense e tã tã tã tãããã "Câncer!" e lá vieram os comentários "Uau! Tadinha", "Já cortou o cabelo e tudo", "Sério? Mas ela fica bem de cabelo curto...", "Verdade. Mas logo agora que a família ia para Itália!", "Tadinha! A prima da uma amiga teve isso também, teve que passar o aniversário no hospital e tudo, eu até fui visitar com a Carol", "Ah, jura? Qual hospital ela ficou?"... e assim seguiu a pior conversa que já tive o desprazer de ouvir, que tipo de ser usa a doença da "amiga" de assunto pro chá de domingo? Sério foi muito sem noção...
    - Não.
    Não?
    - Como assim? Não achou sem noção como elas estavam falando sobre isso?
    - Você me deve duas histórias.
    - Mas como...? Eu acabei de contar...
    - Vo-cê-me-de-ve-du-as-his-tó-ri-as.
    Tem certas lógicas que não dá para contestar.
    - Tá... teve um dia que eu e minha prima levamos minha vó ao shopping, pois ia ter o lançamento de um livro de um padre, só que...
    - Não.
    - Não... certo. O que você quer afinal?
    - O que você me deve.
    - Duas histórias, sei, mas quais?
    - Você me deve duas histórias.
   Ok, eu não tinha saída, precisava das histórias, mas quais? Por outas duas vezes engatei de contar coisas e ela apenas me cortou dizendo:
   - Você me deve duas histórias.
    Eu pensei em toda minha vida, tudo que já ouvi, tudo que passei, só que nada agradava aquela mulher. Eu definitivamente não sabia o que ela queria escutar.
    Então desisti.
    - Não tenho histórias pra contar.

sexta-feira, 10 de junho de 2016

Em Verdade Penso.

    Sempre que passo um tempo sentada na plataforma de uma estação de metrô, seja lá qual seja o motivo, penso que alguém irá entrar a qualquer momento atirando em todos ou que talvez um vagão vá descarrilhar ou ainda que tudo vai explodir ou qualquer coisa desse tipo, qualquer desastre. Então fico imaginado todo mundo desesperado e fico criando a vida dessas pessoas, quem elas são, quem estão deixando para trás, o que as trouxe até aqui e, nessa hora de desespero, como elas agiriam.
    Penso nas pessoas que embarcaram no último trem antes de tudo acontecer, como elas se salvaram por pouco, como vão ficar chocadas quando saberem o que aconteceu. Os outros trens parados, nas pessoas dentro dele sem saber o que se passa, penso em tudo isso.
    Tem um grupo aqui parado na minha frente. Penso quão fácil seria empurra-los para os trilhos, quantos realmente cairiam? Quem reagiria a tempo? Alguém seria salvo?
    Uma menina chora. Pessoas entram e saem dos vagões. E eu só penso no sangue e nos gritos. Penso neles como corpos estirados pedindo, implorando por algum sentido, para que a dor pare, para que o outro responda.
    Aquele ali lê um livro. Um casal se beija. E eu só quero que eles explodam, que caiam, que sangrem.
    Tem um grupo aqui na minha frente. Quantos eu consigo derrubar?
    Veja o grupo de amigos sorridentes. Veja aquela criança brincando em volta da mãe.
    Tem um grupo aqui na minha frente.
    Me levanto.
    Mas quantos? Eu me pergunto, quantos?

quarta-feira, 8 de junho de 2016

A Brincadeira

    As crianças se reuniram no jardim atrás da escola contemplando o resultado da arte que acabaram de aprontar. Por medo, decidiram enterrar tudo, cavaram um buraco como podiam e lá jogaram o produto da mais recente brincadeira.
    O sinal tocou e bem comportados, como ficou decido entre eles, voltaram a sala, em fila, quietos se acomodaram em seus lugares e nenhuma dor de cabeça deram a professora daquele período. A aula acabou e todos foram embora.
   Já era fim de tarde e o jardineiro terminava de regar as plantas do jardim quando notou a terra remexida. Um susto ele levou. A polícia foi chamada e as aulas foram suspensas.
   No jornal dessa manhã havia um anúncio que dizia:

"Procura-se professor de História"




quinta-feira, 2 de junho de 2016

Irreal

    É o quinto dia hoje, o quinto dia desde que eu descobri seu reflexo na janela. Nunca prestei muita atenção em você, quieto, atrás de mim, era quase como se não existisse. Então olhei para o lado e lá estava você.
    Talvez não tivesse me importado tanto se não fosse esse seu semblante melancólico, focado num vazio ou parcialmente escondido, odeio quando se endireita e foge do reflexo.
    Hoje é o quinto dia e alguém tampou sua imagem, pensei em virar para trás e finalmente olhar sua cara e falar com você. Respiro fundo, vou me virando pouco a pouco.
    Olho sua cara. Seus olhos marejados encarando o chão.
    Viro para frente, seu reflexo está lá de novo, melancólico, como eu gosto, como eu entendo, só o que quero saber.

O Livro

    Foi ao ajeitar umas coisas no meu quarto que encontrei o livro. Um tanto empoeirado, verdade, um pó que me impediu de lembrar dele de imediato.
    Abri numa página qualquer, li um parágrafo aleatório. Me era tão familiar, uma sensação logo me ocorreu, a de fechar aquele livro e devolve-lo a poeira, mas era um mistério queria resolver.
    Folheei lendo páginas a esmo, o que me fez duvidar se eu realmente conhecia aquele livro ou não, já que certas passagens eu quase reconhecia e outras eram completamente estranhas.
    Somente na última página que tudo voltou. Seu nome estava gravado lá.

segunda-feira, 30 de maio de 2016

Meu Espelho

    Contemplo os estilhaços do que antes fora um belo espelho. A moldura está um pouco gasta, porém inteira, já o vidro partido se encontra aos meus pés, pouco sobreviveu junto à moldura.
    A queda foi simples, após anos pendurado no mesmo lugar ele caiu, o que me leva a acreditar que a parede ou o prego tenham se cansado do peso, talvez fosse um complô dos dois ou ainda o espelho tenha sofrido as consequências de um desentendimento entre os outros dois, não importa. O grito do espelho se partindo foi o que me acordou, mas ninguém mais ouviu.
    Há uma semana que os cacos estão espalhados pelo chão. Há uma semana e ninguém se dignificou a recolhe-los, ninguém parece notar ou se importar em pisar nos pedaços de vidro. 
    Contemplo os estilhaços do que antes fora um belo espelho. Talvez eu coloque tudo numa caixa e deixe ali num canto.

domingo, 22 de maio de 2016

Criando Dores

É um treco bizarro, tipo um aperto no coração, uma arritmia, isso super daria poesia, no minimo uma boa história com palavras melancólicas e/ou espertas, sabe? Onde a personagem sofre disso, algo que influência na vida, essa arritmia toda vez que ela para, alguém que nunca para, acho que é isso...

  A história da menina que não para...

Pois veja que não era por falta de tentativa ou porque ela adorava a correria, era essa droga de arritmia. 
Toda vez que ela parava, lá estava ela, uma sensação bizarra, seu coração acelerando e apertando, então ela tinha que voltar a atividade e toda a dor passava.
Anos passam e é assim que ela vive, sem parar, sem nem mesmo entender o que a acomete, tudo que sabe é que se para, dói. Melhor é continuar em movimento, melhor é continuar fazendo, nem dormir tá dando, porque para dormir tem que parar e ela não sossega, dói.
E assim foi assim, de movimento em movimento, sem paz que ela morreu.
E ainda dói.

quinta-feira, 19 de maio de 2016

A Verdade (Essa é para mim)

    Eu digo que sou sua amiga, conto para quem quiser sobre nossas coisas, como ficávamos conversando até nada fazer sentido, como você veio, digo o que você acha de mim, ou achava, afinal chegou a hora da verdade.
    Mesmo sendo mais nova uns três anos, que pode parecer pouco agora, mas já é muito, mesmo assim funcionou, nós eramos amigas, eramos.
    Envelheci, você também e alguma coisa nos levou sei lá para onde, mas foi longe, tão longe que quase já não sabia de você, tão longe que nada parecia sério.
    A verdade é uma só, eu não estava aí, eu não lhe ajudei, não segurei sua mão na certeza que ela sempre estaria aqui. E ela não está.
    A verdade é que não me sinto no direito de chorar por você ou sofrer por você, afinal onde eu estava? Onde eu estava? Não devia estar com você? Eu não estava e, as poucas que estive, fingi que estava tudo bem, por que não pôde ficar tudo bem?
    Agora eu sei como eu queria ter estado com você, mas agora não adianta, agora não adianta.
    Sei que sou um pouco de você, só que não me restou nada e me sindo indigna das suas lembranças.
    Nesse momento eu vivi o mesmo tempo que você e já sinto a culpa de ser a mais velha.
    A verdade é que sinto culpa de não ter sido quem você merecia e ainda estou aqui, chorando por você, pois nunca pude, aliás, pois nunca disse o que precisava. Culpa de viver e de apenas poder dizer

                                                    adeus. 

terça-feira, 17 de maio de 2016

Sobre Estar Bem

E eles perguntam "mas tem certeza que está tudo bem?" e eu respondo "É claro que está".
Eu sou uma dessa pessoas que você nunca vê chorar em público, mas que você sempre vê sorrindo e fazendo piadas e sorrindo, a típica pessoa feliz e de bem com a vida. Mas nem eu sou capaz de ser tão contente o tempo todo, aliás, ninguém é, acho que é até por isso que, até aqui, esse texto pareça tão comum, tão "eu já li isso antes milhares de vezes", e esse é o problema, você já milhares de vezes, mas ainda assim ou tenta se passar por feliz o tempo todo ou deixa de perceber que isso não é possível, mesmo para aquela pessoa que é a alegria da festa.
O fato é que nem sempre conseguimos enganar, as vezes damos uma escorregada, achamos que ninguém está olhando e somos pegos de surpresa com o "está tudo bem?". E você diz que sim, que está tudo ótimo, uma, duas, três vezes até ouvir "mas tem certeza?", então sorri e confirma novamente. Por que fazemos isso?
Gosto de pensar que fazemos isso pelo bem dos outros, para que eles não precisem ficar tristes, para que eles saibam que você é a rocha sólida que devem recorrer nos momentos de desespero. Penso que faço isso para que todos saibam que eu posso aguentar qualquer coisa que você esteja sofrendo, eu posso pegar uma parte para aliviar, posso absorver tudo para que você possa despejar sem problemas aquilo que você já não  aguenta mais. Afinal eu estou sempre bem, nada mais justo que você pegue um pouco dessa felicidade eterna que carrego e em troca eu pegue tudo que te faz mal.
Mas não é verdade, eu sofro, sofro minhas próprias perdas e então sofro com as suas e o que fica aqui dentro é o vazio, porque tristeza não enche, ela esvazia, esvazia suas vontades, seus desejos, tudo. E assim vou seguindo a vida, um vazio de cada vez e sorrindo. Sorrir é importante. Você nunca vai ouvir meus desencantos, só que eu estarei aqui sempre para os seus. Isso de certa maneira me faz feliz.
Então deixe-me esclarecer, eu tenho sentimentos, eu sofro, eu choro, eu entro em desespero, eu fico infeliz, mas talvez não tenha a coragem de deixar que os outros me vejam assim, então digo a mim mesma é que por vocês. Sou feliz segurando a sua mão.
E você se pergunta agora "mas tem certeza que está tudo bem?" e eu respondo "É claro que está".

sábado, 30 de abril de 2016

O Mistério da Fileira G

É sexta-feira, uma sexta-feira fria, com aquela chuva gelada que não é forte o suficiente para um guarda-chuva, mas é incrivelmente cortante e irritante. Mas vamos voltar essa história, pois ela começa num lugar um pouco mais aquecido e confortável.
Estou em casa vendo um programa na TV, estou quente, feliz e um pouco assustada. O programa falava sobre uma mulher que dizia conversar com o espirito do pai de uma garota. Nenhuma das duas se conheciam e a única coisa que tinham em comum era o pai morto de uma delas. Se você não acredita nessas coisas entendo que ache que não tem cabimento eu ficar assustada com isso, mas se você estivesse vendo o mesmo programa que eu, bom... talvez você não duvidasse tanto. A questão aqui nem é o programa ou o que você acredita ou o que deixa de acreditar e sim o que aconteceu depois que eu saí da aula.
Lá estava eu, correndo pelas escadas depois de levantar do meu lugar e abandonar a aula. Meu celular na bolsa vibrava e eu corria mais, sabia que estava potencialmente atrasada, só que eu ainda tinha esperanças de que, se eu corresse o suficiente, chegaria no horário. E é nessa parte que eu chego na chuva fria e irritante.
As ruas estavam pouco movimentadas para o horário, o que me deu mais motivos para correr, a chuvinha fina, mais conhecida como garoa insuportável, caia; E eu andando o mais rápido que podia para chegar ao lugar onde havia combinado com uma amiga de assistir uma apresentação de dança. Cheguei. Bem na hora.
Depois dos curtos e apressados abraços e dos "olás", nos dirigimos aos nossos lugares, fileira G, cadeiras 1 e 2, e como esse é daqueles teatros que as cadeiras pares ficam para o lado esquerdo e as ímpares do lado direito, nossas cadeiras eram exatamente o encontro, ou seja, o meio da fileira.
O sinal que avisa que a apresentação está para começar soa, o teatro está lotado, as luzes apagam, a dança começa. Devo dizer que não sou muito entendida de dança, mas posso afirmar com certeza que, seja um apocalipse zumbi, fantasmas ou pessoas-marionetes que estavam sendo representados pela dança, era simplesmente sinistro. Sério, muito sinistro, do tipo que você fica meio tenso e olha que eles só estavam dançando e contorcendo os corpos de uma maneira... sinistra.
Como eu havia dito, o teatro estava lotado, então, durante o intervalo, eu olho para o lado e noto que todo o meu lado estava vazio, digo, todas as cadeiras pares ao meu lado, todas, todas vazias, afinal era o intervalo. Só que quando o apito soou avisando do início as cadeiras continuaram vazias.
Quando o espetáculo acaba comento esse fato com minha amiga que diz não se lembrar se havia ou não pessoas ali, então eu rebato falando que passamos por pelo menos duas senhoras quando fomos aos nossos lugares, ela pensa, mas não tem certeza, nem de que haviam pessoas, nem de que não haviam pessoas.

Metade de uma fileira toda, sumida. E eu nem ao menos os vi levantar para o intervalo, apenas assumi que era isso o que tinha acontecido. Um apaga e acende de luzes numa apresentação hipnotizantemente sinistra. Um vazio do meu lado que ninguém pareceu notar. Agora nem eu mesma sei se essas pessoas estavam lá ou se sempre foram fantasmas da minha mente.

sexta-feira, 15 de abril de 2016

A História da Garota que Amava Escrever e Porquê Ela Nunca Mais o Fez

Amélia era uma menina feliz, sempre sorrindo, pensar nela e tentar descreve-la era como descrever um dia ensolarado, num campo verde com vista para o mar e sua imensidão. E se tinha algo mais característico em Amélia que sua felicidade, era sua capacidade de transformar tudo em história.
Ela era muito feliz escrevendo suas histórias e narrando elas para quem quisesse ouvir. O problema é que nem sempre as pessoas queriam ouvir ou mesmo ler as suas histórias, afinal tem gente que não gosta de história, tem gente que se identifica com uns de seus escritos, mas não com outros, enfim, não importa o motivo, isso fazia Amélia infeliz.
E você pode pensar que tudo bem, pois esses momentos eram raros, então Amélia poderia seguir com sua felicidade, só que não é isso o que ocorre. Cada história ignorada era para Amélia como uma facada, como se ela mesma tivesse sido ignorada. O que nos leva até Stella.
Stella não era tão feliz quanto Amélia, o melhor modo de descreve-la seria observar as inconstâncias do mar ou a relatividade de uma brisa ou ventania em dias quentes e frios. E se tinha algo mais característico em Stella que sua inconstância, era sua capacidade de transformar tudo em qualquer coisa.
Ela era o que era sendo ela e para ela estava tudo bem ser assim. O problema é que Amélia achou Stella fascinante o suficiente para fazer uma história que a envolvesse, mas Stella não achava Amélia nada fascinante, tão pouco suas histórias.

E você pode pensar novamente que tudo bem, pois Stella é só uma pessoa, então Amélia poderia seguir com sua felicidade, só que não foi isso o que aconteceu. Ser ignorada pela própria inspiração foi um golpe tão grande, tão profundo, tão sem precedentes, que Amélia nunca mais escreveu. O que nos leva até o fim.

sábado, 6 de fevereiro de 2016

Carta Para o Setor de Realidade.

Bom dia,



Em virtude de meu problema cardíaco gostaria de pedir que:

 Os relógios não se adiantem nem se atrasem, mas que sejam fiéis a minha ansiedade. Peço as ruas, encarecidamente, que nos levem ao ponto de encontro que combinamos no passado, sem atalhos, nem desvios, apenas nos deixe em nosso destino.  Caso não for pedir demais, que saia o Sol, porém que saia manso, brilhando, mas não criando borbulhas no asfalto. Aos demais empecilhos, deixo aqui registrado meu desejo para que se retirem.

Espero que possa ceder aos meus pedidos.


Atenciosamente,
Setor A1 de Expectativas.


quinta-feira, 4 de fevereiro de 2016

A História da Menina Sem Coração

Ela era uma menina assim... como qualquer outra, bem... não exatamente como qualquer outra, mas bem comum. Aquele tipo de pessoa que ajuda a compor uma multidão, que se mistura com tanta facilidade que já faz parte do cenário.  Antes que você desista dessa história por causa da falta de atrativos vou logo dizendo: ela é comum, mas ela também não tem coração
Ok, você já sabia disso desde do começo, porém fique um pouco mais... só... um pouco mais.