Maldito caderninho! Não me entendam mal, é realmente muito fascinante admira-la enquanto sua mão se movimenta de um lado a outro e seu rosto muda de expressão como se ela vivesse num mundo a parte em sua mente, aliás, foi isso que me trouxe até aqui.
Não me lembro exatamente que dia foi, mas estava quente e eu entediado esperando um amigo. Demorei um bom tempo para nota-la, acho que é um efeito que ela tem de se fundir com a paisagem e não ser percebida, porém, quando é avistada, passa a ser a única coisa que se vê, ou pelo menos assim foi comigo.
Lá estava ela, sentada num canto contando em detalhes para seu caderninho o que se passava em seu mundinho, e eu finalmente tinha algo para passar o tempo, tentar adivinhar o que se passava naquela cabeça e quais eram as palavras que ela escrevia. Não sei se o tempo passou de pressa demais ou se realmente meu amigo chegou no mesmo instante que a vi. Fui embora com ele, olhando-a pela última vez... ou quase.
Outro efeito que ela possui, melhor, habilidade, é de aparecer várias vezes na sua vida nos lugares mais inesperados, o que faz você se perguntar se ela sempre esteve lá e você não viu ou se ela está lhe seguindo, fazendo um dossiê sobre sua vida, o fato é que ela está lá.
A primeira vez que contei aos meus amigos sobre essa menina, eles acharam que eu estava inventando, no mínimo exagerando as coisas. Porém, num desses dias que ela estava lá, também estava com um amigo. Pronto, agora ele estava sob o efeito dela e não demorou para que todos meus amigos quisessem vê-la e comprovar por eles a história.
Depois de um tempo se tornou normal no meu ciclo de amizades alguém chegar dizendo que a tinha a visto neste ou naquele lugar, às vezes até mais de uma vez na semana, o Diogo jura que a viu mais de uma vez no mesmo dia! Ela se tornou parte de nós e falávamos dela como se ela fosse nossa amiga. Só que eu sou besta e acho que me apaixonei. Realmente de tanto topar com ela, falar dela, olhar para ela, eu sentia que já a conhecia e cada vez mais desejava encontrá-la.
Cheguei, certa vez, a ir em vários pontos que ela fora vista, mas me senti um idiota e não fiz mais isso, só que ainda pensava muito nela, tanto que comecei a me policiar quando ela era o assunto, afinal como você explica para seus amigos que está afim de uma menina que vê por aí aleatoriamente sem parecer um completo babaca? Eu nunca encontrei uma maneira. Foi aí que o caderninho começou a me irritar.
Não podia contar aos meus amigos o que sentia, nem para ela, já que, além de ser absurdamente bizarro um estranho chegar em você do nada, tinha aquele caderninho do qual ela não tirava os olhos, impedindo assim que eu tentasse fazer algum tipo de contato visual para buscar alguma abertura a minha aproximação por parte dela e, para piorar, últimos relatos reportaram que ela estava usando fones. E ela estava mesmo.
Eu não podia ficar nessa para sempre e tinha certeza que a Ana já desconfiava de algo. Essa menina estava me deixando louco, como pode nessa cidade tão grande ela aparecer tanto?
Bom, aqui estou eu, esperando o Daniel, e lá está ela. Maldito caderninho! Podia simplesmente pegar fogo, desaparecer, não me importo! E que leve os fones juntos!
Tá. Calma. Respira. Ainda tenho 20... não, 5 minutos, que tipo de pacto maligno ela fez com o tempo? Que seja! É agora.
- Já parou pra pensar em quantas pessoas já sentaram onde está sentada? - ela olhou. - Ou já pisaram onde você pisou? - tirou os fones. - Veja, a cidade...