Eles não tiveram um linda e romântica história, só se conheceram, sem mágica nenhuma, sem grandes acontecimentos, como a maioria dos encontros são. Só estavam no mesmo lugar, quase nem trocaram palavras. Nada parecia um indicativo de nada.
Dias passaram, semanas, meses, as palavras cresceram, os encontros eram sempre certeiros, as risadas, tudo foi acontecendo, sem nada realmente acontecer, de estranhos foram se tornando mais próximos e as distâncias diminuíram e diminuíram. Mas nada, nada parecia um indicativo de nada além do que se podia ver ali.
Foram os olhos.
Ela primeiro se apaixonou pelos olhos, pelo seu formato. Ela olhava e olhava, queria poder desenha-los, reproduzi-los, estava fascinada com aquelas linhas, queria guardar, queria levar consigo. Era só isso, apenas olhos com uma forma muito bonita, nada mais. E nada, nada parecia um indicativo de nada.
Depois vieram as mãos.
Ela só contemplava, observava e fantasiava maneiras de explicar a si mesma o que via e a essa altura já sabia que não havia fotografia, desenho ou palavras para que os outros (e ela) entendessem o que ela via. Via nos olhos e via nas mãos.
Então chegaram os abraços.
Ela recebia todos, não negava um. Eram pequenas doses de felicidade, pequenas doses alívio, pequenas doses de calma e, de dose em dose, ela foi se viciando cada vez mais. Queria mais abraços, mais mãos, mais olhos, mas nunca teria coragem de pedir, só aceitava o que vinha.
Não, ela não viu vindo ou pelo menos fingiu que não, fingiu que nada estava acontecendo. Fingiu que nada era um indicativo de nada, eram apenas fábulas na cabeça dela, ilusões de ótica, da ótica dela nele. E daí se ela queria aquelas mãos sempre segurando as suas? E daí que ela queria aqueles olhos, que já não eram apenas uma questão de formato, mas de alma, fossem seus? Apenas doses de um remédio, apenas doses de um carinho sem compromisso.
Só que aí veio a boca.
Se não fosse o bastante desejar, olhos, mãos e abraços, ela começou a cobiçar a boca. Queria porque queria aquela boca, que ela achasse caminho para a sua boca. Foi só nesse instante que se deu conta que, sejam lá quais mentiras ela havia contado a si mesma até então, não dava mais. Não havia mais como fingir para ela que nada era um indicativo de nada. Mas também não havia o que fazer, além de lidar com tudo aquilo e por limites mentais e lógicos num bando de sentimento louco.
E ele apareceu.
Apareceu mesmo, marcou presença e deu a ela tudo que ela pediu. Primeiro eram essas doses, olhares, mãos e abraços... mas a boca, ele definitivamente apareceu quando deu a boca. Ela desejou tanto, mais tanto, que quando sentiu a boca dele na sua, nem parecia real. Ele havia mesmo virado o rosto? Havia mesmo encurtado a última distância, a última barreira? Havia.
Não, eles não têm nenhuma história engraçada de como o destino os uniu ou como o Universo os fez trombar numa tarde de primavera, enquanto corriam de um dia que tinha começado torto. Nada disso aconteceu. Foi só normal, eles só se viram e nem deram bola, conversaram e nem deram bola, como qualquer estranho que você possa vir a conhecer que lhe pergunte sobre o tempo, uma direção, não é importante.
Não há história, além da cegueira, além das ilusões que foram confundidas com a realidade, que passou a ser descrita como ilusão para iludir. Há apenas um amor que surgiu ninguém-sabe-onde e que ela nunca será capaz de descrever... então o olha mais uma vez.
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