sábado, 30 de abril de 2016

O Mistério da Fileira G

É sexta-feira, uma sexta-feira fria, com aquela chuva gelada que não é forte o suficiente para um guarda-chuva, mas é incrivelmente cortante e irritante. Mas vamos voltar essa história, pois ela começa num lugar um pouco mais aquecido e confortável.
Estou em casa vendo um programa na TV, estou quente, feliz e um pouco assustada. O programa falava sobre uma mulher que dizia conversar com o espirito do pai de uma garota. Nenhuma das duas se conheciam e a única coisa que tinham em comum era o pai morto de uma delas. Se você não acredita nessas coisas entendo que ache que não tem cabimento eu ficar assustada com isso, mas se você estivesse vendo o mesmo programa que eu, bom... talvez você não duvidasse tanto. A questão aqui nem é o programa ou o que você acredita ou o que deixa de acreditar e sim o que aconteceu depois que eu saí da aula.
Lá estava eu, correndo pelas escadas depois de levantar do meu lugar e abandonar a aula. Meu celular na bolsa vibrava e eu corria mais, sabia que estava potencialmente atrasada, só que eu ainda tinha esperanças de que, se eu corresse o suficiente, chegaria no horário. E é nessa parte que eu chego na chuva fria e irritante.
As ruas estavam pouco movimentadas para o horário, o que me deu mais motivos para correr, a chuvinha fina, mais conhecida como garoa insuportável, caia; E eu andando o mais rápido que podia para chegar ao lugar onde havia combinado com uma amiga de assistir uma apresentação de dança. Cheguei. Bem na hora.
Depois dos curtos e apressados abraços e dos "olás", nos dirigimos aos nossos lugares, fileira G, cadeiras 1 e 2, e como esse é daqueles teatros que as cadeiras pares ficam para o lado esquerdo e as ímpares do lado direito, nossas cadeiras eram exatamente o encontro, ou seja, o meio da fileira.
O sinal que avisa que a apresentação está para começar soa, o teatro está lotado, as luzes apagam, a dança começa. Devo dizer que não sou muito entendida de dança, mas posso afirmar com certeza que, seja um apocalipse zumbi, fantasmas ou pessoas-marionetes que estavam sendo representados pela dança, era simplesmente sinistro. Sério, muito sinistro, do tipo que você fica meio tenso e olha que eles só estavam dançando e contorcendo os corpos de uma maneira... sinistra.
Como eu havia dito, o teatro estava lotado, então, durante o intervalo, eu olho para o lado e noto que todo o meu lado estava vazio, digo, todas as cadeiras pares ao meu lado, todas, todas vazias, afinal era o intervalo. Só que quando o apito soou avisando do início as cadeiras continuaram vazias.
Quando o espetáculo acaba comento esse fato com minha amiga que diz não se lembrar se havia ou não pessoas ali, então eu rebato falando que passamos por pelo menos duas senhoras quando fomos aos nossos lugares, ela pensa, mas não tem certeza, nem de que haviam pessoas, nem de que não haviam pessoas.

Metade de uma fileira toda, sumida. E eu nem ao menos os vi levantar para o intervalo, apenas assumi que era isso o que tinha acontecido. Um apaga e acende de luzes numa apresentação hipnotizantemente sinistra. Um vazio do meu lado que ninguém pareceu notar. Agora nem eu mesma sei se essas pessoas estavam lá ou se sempre foram fantasmas da minha mente.

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