quarta-feira, 30 de maio de 2018

A Dona

Já fazia dias que estava caminhando quando finalmente a encontrei ali, parada, como se estivesse me esperando e nada mais. Tentei esconder todo meu nervosismo, todas as minhas dúvidas, expectativas, tentei ser a versão mais calma de mim possível. 
- Pra onde eu devo ir? 
Ela me olhou e, dizer nada, apontou um dos caminhos atrás dela.  
- Esse é o meu caminho? - perguntei meio desconfiada. 
- Você perguntou, eu respondi. - a voz dela era firme e decisiva, mas ao mesmo tempo parecia se propagar em um tempo único, de maneira leve. 
- Sim, mas se eu for por aí, eu vou chegar a onde quero? Eu vou conseguir o que quero? - uma chance dessas eu não podia desperdiçar, mas também não podia ir cegamente. 
- E a onde você quer chegar?  
- Eu só quero que as coisas deem certo...  
- Pois bem, por ali. - e ela voltou a apontar o mesmo caminho. 
- As coisas vão dar certo? - eu definitivamente não estava convencida. 
- Coisas irão dar certo. - a voz dela era como uma onda que vem, vem, vem, quebra de uma vez e volta para da onde veio. 
- Mas só se eu for por ali - apontei para o caminho atrás dela. 
- Você deseja outra coisa? 
Sujeitinha difícil essa. Respirei fundo.  
- Eu só quero que 
- As coisas deem certo - ela me interrompeu. 
-Sim, isso.  
Ela permaneceu estática, me encarando e apontando o mesmo caminho. Eu tinha que tentar alguma outra abordagem. 
- E se se eu for por ali? - apontei em outra direção. - As coisas ainda vão funcionar? 
Ela pareceu ponderar, mas depois de algum tempo comecei a notar que ela apenas não se mexia e apontava o mesmo caminho do começo. 
- E os outros caminhos? Eles não dão certo? - insisti.  
- Ali, - ela apontou um terceiro caminho - você diz?  
- É... pode ser, ali, funciona? 
- Você acha que funciona? 
Eu já havia ouvido falar muito dela, da Dona, ouvi as várias histórias de todos que um dia toparam com ela, que tiveram essa chance, sabia que ela podia ser dúbia, confusa, mas que com certeza, era o que relatavam todos, ela definitivamente sabia do que estava falando. "Não se deixe levar por ela, porém", me alertaram, "ela sabe, sabe mesmo, mas não quer dizer que ela é um ser generoso e benevolente". Essa é a minha chance de fazer as coisas da maneira correta.  
Eu precisava ser mais esperta que ela ou pelo menos tão esperta quanto, para entender os enigmas que ela me colocava a frente. Obviamente o primeiro caminho que ela me apontou não devia ser o correto, era fácil demais. O caminho que eu apontei também não devia ser, pois ela nunca cogitou que eu devia ir por ali. O terceiro caminho por sua vez, parecia uma opção a se considerar... só que... 
- Já sei!  
- Então por onde? 
- Ali - e indiquei um quarto caminho que era paralelo ao terceiro, ia mais ou menos no mesmo sentido do primeiro e passava longe do segundo. 
Ela então me deu passagem e quando passei ao seu lado, ela inclinou a cabeça na minha direção e disse: 
- Eu não posso lhe obrigar a seguir um caminho que você mesma já não tenha escolhido ir.  
Ela se virou para frente novamente e eu segui meu caminho, certa de que tinha algo de muito diferente na voz dela.  

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